Capítulo 90
“Nan, já vou!” Anunciei e ela saiu da cozinha num piscar de olhos, com uma beicinha na cara. Estava com um pano na mão, a limpar creme da mão.
“Já?”
Assenti com a cabeça e fui ter com ela, com a mochila pendurada num ombro.
“Desculpa, mas só tenho duas semanas para treinar e acho que não vai ser suficiente, por isso cada segundo conta. Obrigada por me deixares passar a noite.” Beijei-lhe a bochecha e dei-lhe um abraço.
“Nem por bolachas?” Hesitei, mas neguei com a cabeça. A esperta sabia que essa era a minha fraqueza. Merda.
“Está bem, então, tem cuidado. Vais de bicicleta, certo?” Assenti mais uma vez antes de a abraçar e abrir a porta.
“Até logo, Nan!” Gritei por cima do ombro e bati com a porta. Corri até à pequena garagem ao lado da casa e tirei a bicicleta que usava sempre que vinha cá. Os meus pés quase não tocavam no chão da última vez que andei nela, por isso agora é perfeita para a minha altura.
Pus a outra alça da mala no ombro esquerdo e subi para a bicicleta. Andei pela pequena vereda que levava para onde as árvores se juntavam.
A casa que procurava ficava no sopé de uma colina ali perto, supostamente rodeada por árvores. Bryant levava-me lá às vezes quando íamos visitar a avó. Ele mostrou-me como é que ele encontrava o caminho de ida e volta da casa e, apesar de já terem passado 3 anos desde a última vez que lá fomos, conseguia-me lembrar vagamente das suas indicações.
Finalmente, depois de uma hora a procurar e a andar de bicicleta pela zona, cheguei a uma encruzilhada familiar que tinha uma pequena placa retangular de madeira a sair do chão mesmo no meio dela. Havia uma seta azul desenhada nela. Soube que estava perto, só precisava de seguir o caminho na direção oposta à seta.
O ex-professor do meu irmão não era estúpido. Ele sabia como manipular as coisas para se manter em segurança escondido nestas matas. Ele era um mestre em ensinar o que ensina e Deus sabe quantas pessoas podem estar atrás dele por causa disso. Pelo menos foi o que Bryant me disse.
Pus o pé no pedal e comecei a pedalar para a direita, onde a pista subia um pouco por um bocado antes de começar a descer. Ao longe, consegui ver uma pequena cabana no meio do prado. Estava rodeada por árvores altas. As folhas faziam de copa, que protegia algumas zonas do chão do brilho do sol.
Fui com cuidado para onde a cabana estava. Assim que cheguei a uma árvore grande, chutei o descanso da bicicleta e desci. Fui até à porta da cabana, prestes a bater, quando uma voz veio de trás de mim.
“Pára já!” A voz gritou de perto. Era rouca, mas firme como sempre. O som dela parou os meus próximos passos e pus o pé de volta para onde estava. “Quem és tu?” Ele disse em voz alta.
Voltei-me lentamente, com as mãos levantadas para os lados da cabeça. Um homem velho que parecia ter quase 60 anos estava à minha frente com um balde que parecia estar cheio de água na mão. Deve haver uma fonte ali perto de onde ele tirou essa água.
Ele usava uma camisa cinzenta, gasta e desfiada, juntamente com umas calças. Tinha uma barba que chegava um pouco acima da gola e cabelo grisalho preso num coque. Estava encharcado em suor, os seus músculos fortes nos braços estavam salientes e as suas veias eram visíveis.
Ele mudou a posição dos pés, ainda com o balde. Era um mestre nas artes marciais, tudo era uma arma para ele e tenho a certeza que se fosse preciso, ele não hesitaria em atirar o balde e o seu conteúdo à cabeça de um inimigo.
“Estou à sua procura, Shī Fu. Nĭ jì de wŏ ma (Lembra-se de mim)?”