Capítulo 82
Eu tava morrendo de fome; daquele tipo de barriga roncando muito. Tudo que eu conseguia lembrar do jantar que eu "comi" ontem à noite era a comida que eu quase não toquei antes do Adam aparecer e me mandar embora.
Nossa, eu fiquei mais ofendida com o fato dele ter me mandado embora antes de eu realmente comer alguma coisa do que com o fato dele ter me mandado embora, tipo, ponto final.
Então lá estava eu, sentada sozinha em um canto com cara de deprimida de um restaurante com cara de deprimido, com uma mesa com cara de deprimida em uma cadeira com cara de deprimida, me sentindo deprimida. Meu moletom estava cobrindo meu rosto e me dava uma sensação de isolamento e privacidade, se é que isso faz algum sentido.
Um garçom veio pegar meu pedido e eu passei 3 minutos inteiros só olhando o cardápio porque nada parecia apetitoso o suficiente para comer. Porra, estômago, decide logo.
Finalmente, eu me decidi pelo espaguete à bolonhesa e mussarela derretida com batatas fritas de acompanhamento.
Que que eu posso dizer? Uma garota tem que comer o que uma garota tem que comer.
O garçom saiu para anotar meu pedido enquanto eu decidi me deixar olhar ao redor e encarar à vontade. As pessoas provavelmente achariam que eu sou mal-educada por ficar encarando, mas honestamente, eu não conseguia mais me importar. Eu estava cansada demais e envolvida demais com o clima deprimente do meu entorno para pensar no que estaria passando na cabeça delas naquela hora.
Mas algo no canto do meu olho chamou minha atenção; uma cor de cabelo familiar que eu não podia esquecer.
Era impossível esquecer a cor do cabelo dele, mesmo se estivesse estilizado. Eu rapidamente virei meu corpo todo para olhar para o homem que estava passando pelo restaurante com três criancinhas nos braços. Um menininho asiático estava sentado nos ombros dele e estava pressionando seus dedinhos na testa do homem, a ponto da área começar a ficar branca.
Uma garota de cabelo escuro com pele escura e olhos de corça estava sendo carregada ao lado do homem e estava brincando com o tecido da camisa dele. Seu braço esquerdo estava circulando sua pequena cintura e ele a abraçava perto de seu corpo. Sua mão direita estava ligada à mão de um menininho um pouco mais gordinho. As crianças olhavam ao redor com seus olhos inocentes e alheios, enquanto os olhos do homem estavam cautelosos e cansados.
Embora sua pegada nas crianças parecesse frouxa e suas passadas não estivessem em um ritmo frenético, seus olhos se moviam para todos os lados algumas vezes, como se quisesse ter certeza de que não estavam sendo observados. Eu casualmente coloquei meu cardápio para cima e deslizei meu corpo para baixo na cadeira, levemente, para esconder meu rosto enquanto eu os observava.
Continuei os observando pela janela do restaurante enquanto eles passavam por mim. A garotinha puxou levemente a camisa do homem e apontou para algum lugar à direita deles.
Meus olhos seguiram sua linha de visão e viram um parque com uma banca de sorvete perto dele. Eu vi o homem balançar a cabeça e, com uma leve descrença, os observei atravessar a rua para pegar sorvete.
Eu não sabia o que estava esperando, mas definitivamente não incluía o homem, que eu achava ser um homem furioso e cruel, a acatar as exigências da garotinha e realmente comprar para os três uma casquinha de sorvete cada.
Depois de comprar o sorvete, eles continuaram andando e viraram uma esquina, desaparecendo da minha vista. Soltei a respiração e olhei para a minha esquerda, onde o garçom estava me olhando de forma estranha com uma bandeja cheia do meu pedido nas mãos.
Meu estômago roncou com raiva ao ver aquilo, exigindo ser alimentado assim que eu colocasse minhas mãos na comida. No segundo em que o garçom colocou a comida na mesa, peguei os talheres e comecei a comer. Enquanto mastigava, tentei saborear o sabor e pensar no que eu vi antes ao mesmo tempo.
Surpreendentemente, a comida na minha boca não ficou amarga com o pensamento do cara que me forçou a participar da competição que poderia tirar minha vida. A visão das crianças agarradas a ele amoleceu uma parte de mim que o via como inimigo; a parte que o odiava por ser uma ameaça para minha família e para o Adam.
Foi definitivamente minha culpa por mergulhar de cabeça nessa vida impulsivamente sem pensar nas consequências que poderiam afetar as pessoas que eu amo. Eu fui egoísta e estúpida. Essa linha de pensamento foi o que me fez decidir deixar o Adam.
‘Quem eram aquelas crianças?' Agora que eu pensei sobre isso, foi um pouco estranho. Poderiam ser filhos dele?
Considerando a alta taxa de gravidez na adolescência da nossa geração, eu não deveria estar surpresa. Mas isso não é provável, já que nenhuma das características deles se assemelhava às dele; nem um pouco.
Ou poderiam ser crianças que ele sequestrou de pais ingênuos; embora eu não visse o medo gravado em seus rostos nem entendesse por que ele faria isso se isso somasse à lista de pessoas com quem ele precisa gastar dinheiro, ainda era possível. Ele poderia estar envolvido com tráfico de crianças. Quer dizer, ele não me deu exatamente uma primeira impressão muito boa.
Talvez sejam seus sobrinhos e sobrinhas? Eu nunca pensei que o homem que me ameaçou na floresta teria o coração de cuidar ou ser gentil com crianças. Ele me chantageou colocando em risco a segurança dos meus entes queridos, então me desculpe pela minha falta de fé e crença.
Pensamentos de que aquelas crianças poderiam estar sendo traficadas dispararam um alarme na minha cabeça. Levantei-me abruptamente da minha cadeira, quase derrubando-a, e tirei algumas notas para pagar a conta antes de sair correndo do pequeno restaurante.
Saí correndo na direção que eu os vi ir por último.