Capítulo 179
“E aí, tá em casa?” o Dom perguntou assim que a linha conectou.
“Tô, qual é a brisa?” Eu continuei com o telefone grudado na orelha, usando o ombro enquanto digitava a minha tarefa no meu laptop.
“Cê pode sair um pouco? Preciso falar com você sobre um bagulho.” O Dom falou.
“Ah, e tenta não contar pra Casey.” Ele adicionou depois de um segundo. Eu olhei para a forma adormecida da Casey na cama ao lado da minha.
“Ela tá dormindo pesado, relaxa.” Eu respondi, olhando de volta para a tela com pouca luz na minha frente e terminando de digitar a última frase. A luz da tela era a única fonte de luz no quarto escuro, já que eu não queria atrapalhar o sono da Casey.
Eu relaxei o ombro e deixei meu telefone escorregar para a minha mão, levando-o para a outra orelha enquanto desligava meu laptop com a outra mão.
“Onde você quer que a gente se encontre?” Eu perguntei enquanto pegava as minhas chaves.
“No café perto da sua casa?” O Dom perguntou.
“Beleza, tô saindo de casa.” Eu falei antes de desligar a chamada.
Eu olhei para a silhueta da Casey que mal dava pra ver no escuro e usei meu celular para deixar uma mensagem de texto pra ela avisando onde eu ia.
Eu tirei a moto da nossa garagem e levei ela pra fora da casa antes de subir e ligar o motor.
Eu saí do nosso bairro e fui para a estrada principal. Normalmente levo uns 10 minutos pra chegar no café, mas como tá tarde e não tem muitos carros na rua, acho que consigo chegar em pouco mais de 5 minutos.
A uns quarteirões da nossa casa, eu olhei no espelho lateral pra ver se tinha algum carro atrás de mim e notei que um carro preto chique tava saindo da lateral da rua.
Eu não dei bola pra isso, torcendo o acelerador da moto ainda mais pra aumentar a velocidade. Cheguei no café em 6 minutos, estacionando em um lugar vazio. Só tinha um par de motos e um carro estacionado perto da minha e eu assumi que o carro era do Dom.
Tirei o capacete e pendurei no gancho embaixo do guidão da moto, passando a mão no meu cabelo antes de tirar a chave da ignição.
Eu desci da moto e olhei ao redor. A rua tava mais ou menos vazia, exceto por alguns carros que estavam passando. Eu tava quase virando pra entrar no café quando alguma coisa no canto do meu olho chamou minha atenção.
Eu achei que vi a parte de cima de um carro com o farol desligado ali na rua, na esquina, mas quando olhei de novo, não tinha nada lá.
“Provavelmente é só minha paranoia”, eu falei pra mim mesmo. Desde que levei a Casey no Lugar Secreto, eu tô sempre tenso; como se alguém fosse pular do nada e atacar a Casey ou a mim.
Eu balancei a cabeça e me virei, subindo os degraus que levavam à entrada do café.
Eu empurrei a porta e procurei pelo Dom.
Ele tava sentado em uma cabine perto da janela, de costas pra porta.
Eu passei tempo suficiente com o garoto pra reconhecer ele só de olhar pra as costas dele.
Nós quatro, junto com a minha priminha Monic crescemos juntos. O Dom era família, eu conheço ele desde que ele nasceu porque nossos pais eram muito amigos. Nossas mães eram melhores amigas e nossos pais eram sócios.
Eu praticamente ajudei a criar ele apesar da nossa pequena diferença de idade.
Eu fui em direção a ele, cumprimentando ele com um tapa nas costas, sem esperar que ele fosse pular com o contato.
Eu levantei as mãos em rendição quando ele virou a cabeça pro lado pra ver quem tocou nele.
“Uau, alguém tá nervoso.” Eu comentei, deslizando pra dentro da cabine, sentando na frente dele e da entrada.
“É, nem sei por que eu tô assim.” Ele brincou, me dando um sorriso torto. Mas sua perna tremendo traiu a fachada que ele tava tentando mostrar.
O tremor que a perna dele tremendo causou viajou por toda a mesa, fazendo com que o café dele refletisse o movimento.
Eu levantei uma sobrancelha com o comportamento estranho dele.
“Tá tudo bem?” Eu perguntei pra ele. Ele tava definitivamente agindo de forma esquisita.
O Dom mordeu as unhas enquanto me encarava, mostrando de novo os hábitos que ele tem quando fica nervoso.
“Você vê…” O Dom começou a falar antes de balançar a cabeça, mudando de ideia.
“Não, espera, eu tenho tudo planejado na minha cabeça. Me dá um minuto pra reorganizar meus pensamentos de novo e fazer isso direito.” Ele levantou a mão, me colocando em espera.
Eu levantei as palmas das mãos um pouco, “Demora o tempo que precisar.”
Eu aproveitei a chance pra olhar o cardápio que tava em cima do balcão do caixa e ver se tinha alguma coisa que me interessasse.
Quando eu senti que não tava afim de comer ou beber nada, eu mudei minha visão pra noite escura lá fora. A janela tinha umas leves marcas de água da chuva, mas tava claro o suficiente pra me permitir ver os dois caras que estavam caminhando em direção ao café da esquina da rua.
Era a mesma direção que eu achei que tinha visto o carro estacionado.
Eu apertei os olhos, tentando entender as caras dos caras na ausência de iluminação suficiente pra isso.
Depois de um segundo, eu senti uma sensação estranha de familiaridade quanto mais eu olhava pros caras que estavam chegando no café.
Não demorou muito pra eu perceber quem eram os caras.
Mas já era tarde demais.
Eles já estavam na entrada do café, empurrando a porta.
Agiotas.
Os agiotas que estão atrás do Joe.
O sino em cima da porta tocou pra sinalizar a chegada de novos clientes e os funcionários atrás do caixa cumprimentaram eles com uma voz alegre, apesar da hora.
Os lábios do Dom se separaram e ele respirou fundo como se fosse começar a falar, mas eu rapidamente levantei as mãos e mostrei pra ele meus olhos arregalados antes de abaixar rapidamente a cabeça e usar a minha mão pra cobrir o meu rosto discretamente o máximo que eu consegui.
“Que foi?” o Dom perguntou. A perna dele parou de tremer nessa hora e ele tava tentando olhar bem pra minha cara, com a mão tentando tirar a minha mão do meu rosto.
“Cê tá doente?” Ele perguntou de novo.
Enquanto isso, eu não consigo esconder minha agitação pela falta de noção dele.
Ele vai meter a gente em encrenca.
De repente, ele parou de tentar tirar a minha mão do meu rosto. Antes que eu fosse checar se os caras que tinham acabado de chegar tinham ido embora, o Dom falou.
“Podemos ajudar vocês?”
Eu tenho certeza que não era pra mim.
“A gente tava pensando se pode ajudar vocês. Seu amigo tá bem?” A voz familiar perguntou com uma preocupação fingida.
“A gente se vira, obrigado por perguntar.” O Dom respondeu, me fazendo exalar mentalmente em alívio.
“Certeza que não quer nossa ajuda?” Outra voz perguntou de novo.
“A gente pode ajudar vocês a levar ele pro carro”, a voz familiar ofereceu.
Eu rezei pra que o Dom negasse a oferta, mas acho que o céu não tava do meu lado naquela noite.
Depois de um momento do que eu presumo ser contemplação, o Dom aceitou a oferta.
Eu sussurrei uma praga em voz baixa.
A hora que eu senti uma mão no meu ombro, eu peguei a mão e torci, usando a outra mão pra pressionar contra o ombro dele pra forçar ele a se dobrar e deitar a parte de cima do corpo dele na mesa da cabine, errando a xícara de café por meros centímetros.
Eu mantive minhas mãos naquele exato lugar pra impedir o cara de se mexer e empurrei contra o corpo dele pra pular no meu assento e escapar do espaço confinado da cabine.
Eu usei o impulso do meu pulo pra dar um chute voador em direção ao outro cara, aterrissando em uma posição meio agachada.
Eu rapidamente fiquei de pé e peguei o pulso do Dom, arrastando ele pra fora do café, mal percebendo os olhos que estavam olhando pra gente enquanto a gente saía correndo do prédio.
“Vai! Dirige!” Eu empurrei ele em direção ao carro dele.
“Mas e você?” Ele gritou pra mim por cima do ombro enquanto corria de lado pro carro dele enquanto olhava pra mim.
“Eu vou ficar bem! Eu te conto tudo depois! Agora, vai dirigir!” Eu gritei de volta, já na minha moto, prendendo meu capacete e colocando a chave na ignição.
Eu tava no meio de dar ré na minha moto pra sair do estacionamento quando os caras saíram tropeçando do café.
“Pega ele! A gente não pode perder ele também!” O chefe ordenou.
O carro do Dom já tava passando voando pelo café e eu fui rápido em seguir o exemplo antes que os caras me pegassem.
Enquanto eu dirigia, eu só conseguia pensar em um refúgio seguro pra onde eu podia ir.
A delegacia.
Vários pensamentos, perguntas diferentes estavam batendo nas paredes da minha cabeça sem parar.
Como eles sabiam onde eu tava?
O que eles queriam dizer com a gente não pode perder você ‘também’?
O Joe escapou?
Mas como ele escapou?
Se eles conseguiram me encontrar tão fácil, como ele pode escapar do radar deles?
Ele não podia ter...
Ele não podia ter se mudado pra outro país, podia?
Essa foi a única ideia que eu consigo pensar pra escapar desses caras.
Até onde eles tão dispostos a ir?
Eu era só amigo do Joe. Eu não era da família imediata dele ou nem parente.
Eles tão mesmo atrás de mim porque eu peguei eles batendo no Joe e ajudei o Joe?
Se eles estavam indo por essas medidas pra me encontrar quando eu sou só amigo do alvo deles, o que eles vão fazer com a minha irmã?
Eu arrombei as portas da delegacia, surpreendendo uns policiais que estavam sentados atrás da mesa.
“Podemos ajudar você?” Eles me perguntaram, enquanto um deles ia em direção a mim.
Eu balancei a cabeça, apontando pra porta, tentando recuperar o fôlego e falar as palavras que eu queria dizer.
“T-Tem gente atrás de mim”, eu falei entre as respirações.
“Você pode explicar o que você quer dizer com isso?” O policial perguntou, olhando pra mim com preocupação.
“Agiotas”, eu falei rapidamente, meu peito ainda se movendo com o ar.
Eu me curvei e coloquei as mãos nos joelhos enquanto deixava meus pulmões relaxarem.
“Ok, garoto, preenche a papelada e registra um boletim de ocorrência. A gente te procura em uns dias.” O policial falou, me oferecendo pedaços de papel grampeados e uma caneta.
Eu olhei pras folhas na mão dele, tentando processar o que ele tinha acabado de falar.
Uns dias?
“Mas eu não tenho uns dias! Esses caras me acharam em uns dias! Eu não posso simplesmente ir embora e evitá-los pelos próximos dias, posso? E minha irmã. Minha irmã vai estar em perigo”, eu falei sem parar freneticamente, endireitando e passando os dedos pelo meu cabelo, puxando os fios em frustração.
Como esses policiais não sentem a menor ponta de urgência?
“Você devia ter pensado nisso antes de se envolver com esses agiotas, né?” O policial levantou as sobrancelhas como se estivesse dando uma bronca em uma criança pequena por roubar biscoitos.
“Você tem que preencher a papelada pra gente conseguir fazer alguma coisa, garoto.” Ele adicionou.
Eu olhei pros papéis por um momento antes de pegar eles do policial.
Isso é melhor que nada.
Eu vou descobrir como posso ganhar tempo até a polícia nos dar proteção.
Era pra levar meia hora pra preencher a papelada e eles me disseram que precisam de mais uma hora pra processar o boletim de ocorrência.
Eu sentei lá, cinco minutos preenchendo a papelada. Meus pensamentos estavam correndo soltos na minha mente.
Eles foram em direção ao café da direção do carro que eu vi.
Eu tenho certeza que eu vi um carro estacionado lá na esquina, na rua.
Aquele carro...
A minha mão parou de se mexer, pairando em cima do papel quando alguma coisa surgiu na minha mente.
Eu deixei a caneta cair e ela bateu no chão quando a minha cadeira raspou alto contra as pedras do chão quando eu me levantei bruscamente.
Eu corri pra fora da delegacia, deixando o relatório inacabado no balcão.
Eu subi apressadamente na minha moto e acelerei pelas ruas.
Eu tenho que voltar pra casa.
Eu tenho que ter certeza que a Casey tá bem.
Se as minhas suspeitas estiverem certas sobre aquele carro, a Casey tá em perigo.
Eles sabem onde a gente mora.
A pânico em mim aumentou conforme os segundos passavam.
Eu torci o guidão até o máximo que conseguia e rezei pra que minha irmã estivesse bem.
Por favor, fique bem.
Eu sei, a partir de agora, que eu tava por minha conta.
Eu vou proteger minha própria irmã.