Capítulo 65
"Ainda não curto a ideia dele estar saindo com a minha filhinha", ele disse, e eu fiz 'shhh' pra ele rapidinho quando ouvi passos vindo.
"Eu tava fazendo mingau pra minha família antes de vocês chegarem, e pensei que vocês iam querer também, já que a sua filha pareceu gostar."
Meus olhos brilharam com a menção da comida deliciosa e eu corri pro lado do Adam. Ele tava segurando uma bandeja com umas tigelas pequenas cheias daquela coisa branca e gosmenta. Olhei pra ele, tipo, em silêncio, perguntando se eu tava certa em sentir a presença daquele, sei lá, a parada-que-chama-de-coisa.
Adam riu levemente, a primeira risada de verdade que ouvi em mó tempão. Deu um sorrisinho no meu rosto, ouvindo aquele som familiar que botou um monte de borboletas no meu estômago. Eu nunca tinha dado tanto valor pra sensação de fazer alguém rir, até aquele momento. Me peguei saboreando cada segundo.
Puxei uma tigela da bandeja e passei pros meus pais, ainda segurando o Pio perto de mim com a outra mão.
"Vocês têm que provar. É muito bom e tem que comer aqueles pães desfiados marrons no fundo da tigela", eles me olharam meio estranho, e eu já imaginei que eles tavam pensando que a tal coisa era marrom de cocô, o que foi meio perturbador.
Mesmo me dando aquele olhar de 'tá tudo bem?', eles pegaram uma colherada e enfiaram na boca de um jeito mais elegante que o meu. Eu tava praticamente devorando tudo em segundos, sem medo de parecer uma porca. Se eu ia passar meus dias de namoro com esse cara, por que ia fingir ser quem eu não sou? Não vou comer igual uma madame se não tem ninguém pra impressionar, com meu estômago roncando que nem uma fera, e como o Pio é muito novo pra entender qualquer coisa, não tinha com o que me preocupar.
Ou pelo menos era o que eu achava.
"Cassandra Rylie Johnson, o que eu te falei sobre comer devagar?! Já não aprendeu o suficiente pela quantidade de vezes que engasgou com a própria comida?" Ela gritou, e eu me escondi rapidinho atrás do Adam com o Pio grudado em mim pelo pescoço, enquanto fugia do olhar furioso da minha mãe.
"Tô morrendo de fome!" Eu reclamei de trás do Adam e senti o olhar da minha mãe me perfurando pelo Adam, chegando em mim como se ele fosse um vidro transparente.
"Essa não é desculpa, mocinha!" Minha mãe respondeu, enquanto o Adam e meu pai riram juntos das nossas brincadeiras.
"Mulheres", meu pai brincou pro Adam, recebendo um aceno do meu, como é que fala, namorado.
"Ei!" Minha mãe e eu gritamos ao mesmo tempo, ofendidas com o comentário deles, e demos uns tapas na cabeça dos dois. Os dois fizeram uma careta e esfregaram o lugar que doeu, enquanto eu e minha mãe caíamos na gargalhada. O quê? Tá no sangue.
"Onde estão os outros?" Olhei pros lados e, no segundo seguinte, passos desceram as escadas, respondendo minha pergunta.
"Adam, Pio? O que tá pegando?" O Preston perguntou preocupado. Levei um choque quando ouvi aquele tom de irmão. Parecia que eu tava ouvindo outro Preston. Nunca tinha ouvido ele falar tão carinhoso, e foi uma boa mudança, mas ainda parecia estranho nos meus ouvidos. Outro rosto apareceu atrás das pernas do Preston, o cabelo dela caindo pelos ombros e aqueles olhos grandes e doces olhando pela sala, a carinha tímida mudou pra uma de alegria quando ela me viu.
Ela ignorou completamente que tinha estranhos na sala e veio correndo pros meus braços. A gente fez um abraço em grupo, só as crianças e eu.
O Jerry foi o último a descer as escadas e se juntar a nós. Ele ficou do lado do filho mais velho e decidiu ficar vendo as crianças interagindo com outros seres humanos de novo.
"Gente, quero que vocês conheçam meus pais", falei baixinho pras crianças, soltando elas e virando-as pra encarar meus pais. A Cali aproveitou pra se esconder atrás da minha perna, abraçando ela como se dependesse daquele membro pra viver.
"Tá tudo bem, Cali, eles não vão machucar você. São pessoas boas", a Cali olhou pra mim antes de voltar a olhar pros meus pais.
"Que nem a mamãe?" Ela perguntou baixinho, e a minha postura bambeou com a voz dela, tão medrosa, tão frágil. Tenho certeza que a sala toda se emocionou com a pergunta dela. Era um assunto delicado, mas ninguém ousou interrompê-la. Nem mesmo o Preston, que geralmente adora dar patada nas pessoas se elas começam a mexer num assunto sensível. Eu balancei a cabeça em resposta à pergunta dela, e foi o suficiente pra ela sair do esconderijo e encarar meus pais. Minha mãe e meu pai botaram um sorriso no rosto, e deu pra ver que meu pai tava se esforçando pra não assustar ela, enquanto minha mãe ligava o modo mãe dela.
"Oi, Cali, meu nome é Ophelia, mas pode me chamar de Lia. Esse é meu marido, pode chamar ele de Finn. Se não se sentir à vontade pra nos chamar pelos nomes, pode nos chamar de Tia O e Tio Finn, o que te deixar mais confortável, querida."
Sorri e coloquei o Pio em pé quando ele começou a se mexer, tentando sair dos meus braços. Os dois brincaram com meus pais, e os sorrisos nos rostos dos quatro foram muito bons de ver. Finalmente entendi o que a Carla tava tentando dizer. Tudo o que eu precisava era ser eu mesma e uma ajudinha dos amigos. Vi o Preston e o Jerry sorrindo com a cena. O Preston direcionou o olhar pra mim e acenou em agradecimento silencioso. Eu dei um sorriso pra ele e balancei a cabeça de volta.
'Vou cumprir minha promessa, Carla', pensei comigo mesma, olhando pra todos aqueles rostos sorrindo.