Capítulo 17
Quando a tela do celular ficou preta, a luz fraca que tinha refletido nos olhos da Winnie também sumiu. Ela fechou os olhos e entregou o celular para a Yulia. "Desconecta a internet por três dias."
O hotel onde a galera estava hospedada não era longe, e depois de voltar pro quarto dela, a Winnie encheu a banheira com água e mergulhou o corpo dela todo machucado. Os joelhos, as omoplatas e os cotovelos estavam todos ralados, com manchas de sangue de vários tamanhos.
A dor da água quente era tão forte que ela puxou o ar com força, o corpo tenso com a sensação.
Parecia que alguém deixou escapar, e o diretor ficou sabendo dos ferimentos dela. Depois de mais algumas cenas de atuação emocionante, ele deu dois dias de folga pra ela, de boa. Ela dormiu por dois dias no quarto dela.
O que ela não sabia era que, enquanto ela estava offline, tinha um monte de ligações de um número desconhecido, uma de manhã e outra de noite. Mas a Yulia seguiu as ordens dela direitinho e não atendeu nenhuma.
Foi só no terceiro dia, quando a tempestade na mídia sobre a alta costura dela e a saída do set tinha acalmado, que a Yulia devolveu o celular e falou: "Alguém ficou ligando, mas era um número que não sei. Acho que é fã tentando dar uma lição nos seus stalkers."
Não era a primeira vez que ela lidava com esse tipo de coisa. Os stalkers podem ser chatos, espertos e invasivos. Mas esse era especialmente esperto – usando um cartão virtual sem número de celular.
A Winnie não tava nem aí. "E depois?"
"Eu falei umas verdades pra eles," a Yulia disse, indignada. "Seu número só é conhecido por pessoas próximas, e você não registrou em nenhum lugar, então como alguém que você não conhece ia ligar? Até os golpistas não são tão insistentes. Então, hoje de manhã, eu mandei uma mensagem pra eles, xinguei tudo e bloqueei o número."
A Winnie soltou uma risada, achando engraçado o espírito de fogo da ajudante. Mas, quando a risada acabou, uma sensação estranha começou a rolar. Espera aí –
Será que era –
A expressão dela mudou na hora, e ela correu pra desbloquear o celular. Os olhos dela arregalaram quando ela leu cada palavra da mensagem furiosa que a Yulia mandou.
Perfeito!
Ela tinha chamado ele de stalker tarado, dito que o amor estranho dele era algo que ninguém aguentava, e que ele era uma barata vivendo no esgoto.
A Winnie não conseguia imaginar, nem nos pensamentos mais doidos dela, o que um cara que nasceu com a colher de prata na boca – alguém que passou a vida sentado em um Maybach – ia pensar quando visse uma mensagem dessas. As sobrancelhas dele iam franzir, e ele ia começar a duvidar de tudo que ele sabia.
Hoje era pra ser o dia em que o jovem mestre da Marlowe Group ia se mudar oficialmente pra sede da MARS pra começar a trabalhar.
Agora, o jovem mestre estava realmente vindo pra L.A. pra trabalhar – e ia ficar por um tempo. Todo mundo aprendeu rapidinho a arte de esconder as emoções, primeiro vestindo os ternos e as saias lápis com cuidado, e depois arranjando um jeito de esticar a jornada de trabalho até as 19h.
Depois de um mês de espera, eles finalmente receberam o aviso oficial. O Sr. Marlowe, junto com toda a diretoria, ia chegar hoje pra se instalar no escritório, fazer inspeções no trabalho e ouvir os relatórios de liderança do terceiro trimestre.
O céu de outono em L.A. ainda estava limpo e sem nuvens, mas cada andar da sede da MARS estava envolto em uma sensação de desconforto. Assim que todo mundo prendeu a respiração esperando a chegada do Sr. Marlowe, o Maybach que o levava encostou devagar na rua e piscou os piscas-alerta.
O Eric, que tava no volante, esperava a próxima instrução depois que o Sr. Marlowe parou de repente.
O Sr. Marlowe, no entanto, ainda tava pensando na mensagem.
Essa mulher tinha sumido por três dias, e depois mandou uma mensagem estranha, confusa e preocupante, com o estado mental dela claramente instável.
Como alguém que cresceu ouvindo falar de sequestros, extorsões e casos de resgate, e que teve o luxo de carros à prova de balas desde a escola, com um irmão mais novo que tinha sido sequestrado, e sempre com quatro seguranças acompanhando ele em eventos públicos como parte de uma família top – o Sr. Marlowe pensou logo em uma possibilidade:
Ela tinha sido sequestrada.
Essa mensagem era… um pedido de ajuda?
Percebendo isso, a expressão dele mudou. Sem pensar duas vezes, ele apertou três números na tela: 911 –
O Eric percebeu a mudança na expressão do Sr. Marlowe e, ainda segurando o volante, virou pra perguntar: "O que aconteceu?"
O Sr. Marlowe não teve tempo de responder. Quando ele tava quase ligando, uma ligação entrou.
"Winnie" apareceu na tela.
O rosto dele escureceu, os olhos nublados de incerteza, e depois de respirar fundo, ele deslizou pra atender.
"Alô, é o Sr. Marlowe? Por favor, me escuta, eu preciso explicar…" A voz da Winnie tava desesperada, sem jeito, e ela tava torcendo pra que o cara ouvisse ela antes de julgar.
O coração do Sr. Marlowe, que tinha se acalmado um pouco, afundou de novo. Ele apertou o celular com força, por instinto.
Era a voz dela. Ele sabia que não tinha se enganado. Mas ela parecia ansiosa, em pânico, e claramente… não tava em um bom estado mental.
O Sr. Marlowe imaginou que essa era a chance que a Winnie tava esperando, e no pânico, ela nem conseguia chegar no ponto. Ele cortou ela, perguntando direto: "Onde você tá? Eu vou te buscar."