Capítulo 58
O relógio tourbillon castanho não voltou pro dono porque o Sr. Marlowe não pegou.
"Hoje é um encontro acidental, não é hora de devolver as coisas", ele falou de boas, se levantando do sofá. "Tenho negócios pra resolver; preciso ir. Os sanduíches já já chegam; come uns antes de ir."
Assim que ele terminou de falar, teve uma batida na porta. O Sr. Marlowe falou, "Só um minutinho."
Winnie ficou meio zonza com o cheiro dele chegando por um momento. O Sr. Marlowe fez um biquinho de leve, levantando uma mão pra encostar o rosto da Winnie no dele; ela quase sentiu a respiração quente no nariz dele.
Os ombros dele eram tão largos.
Esse foi o único pensamento que sobrou na cabeça da Winnie.
Uma fragrância reconfortante vinha da pele dele perto do pescoço, dominando a respiração dela.
Com um clique, a porta abriu no segundo seguinte; o garçom entrou. Por causa do ângulo, ele só conseguiu ver uma mulher se encostando no abraço do Sr. Marlowe como se eles estivessem se beijando. Entendendo a etiqueta de não olhar onde não devia, ele manteve os olhos fixos, fez uma reverência e colocou o chá e os lanchinhos na mesa antes de pegar a bandeja e sair.
A porta fechou e o Sr. Marlowe soltou, com uma expressão calma como se o que acabara de acontecer fosse só uma besteira.
O coração da Winnie tinha pulado e depois se acalmado; depois de um tempo, ela levantou o olhar e falou, "Obrigada."
Antes de ir, o Sr. Marlowe se despediu com um "Até mais".
Ela comeu um sanduíche de salmão e depois desceu, cumprimentando e conversando de boas na festa do chá, discutindo as novidades banais com facilidade, como sempre.
Entre os convidados estavam editores de moda veteranos de revistas e diretores de publicidade. Segurando taças de champanhe, eles conversavam de boas, naturalmente levando a conversa pro próximo baile de moda em meio mês.
Esse era o evento anual que a revista feminina Oda fazia, onde eles davam prêmios como "Artista do Ano" e "Poder Estelar do Ano", prêmios que, no fundo, não significavam nada. Esses prêmios eram só pra dividir as oportunidades; a importância deles se resumia a serem listados nas conquistas pelas fanbases. Mas não importa se você era um ator ganhador do Oscar ou um grupo ídolo top, se fosse convidado, você com certeza ia liberar a agenda pra ir e dar o máximo de si.
Porque essa era a noite da revista feminina top, uma noite em que as marcas de luxo globais avaliavam o carisma e o poder estelar dos artistas.
As parcerias com marcas eram uma parte significativa da grana de um artista, sem falar nas inúmeras vantagens de ser o queridinho das marcas de luxo, tipo ter capas de revistas de alta qualidade, ganhar exposição global, elevar o status na moda e facilitar as negociações de negócios pra taxas de parceria.
Mesmo numa perspectiva bem prática, os artistas queridinhos das marcas de luxo não precisavam se preocupar com as roupas pros eventos durante os 365 dias do ano. De joias vintage de alta qualidade e vestidos de alta costura de milhões de dólares até as últimas roupas prontas pra usar, eles podiam pegar emprestado qualquer coisa da marca. Consequentemente, mais marcas não concorrentes estendiam seus braços, torcendo pra que os artistas usassem suas últimas peças da estação.
Um evento desses era inevitavelmente uma arena de gladiadores pra todos os artistas.
O acesso da Winnie aos recursos de moda tinha diminuído bastante, embora ninguém falasse abertamente. Mas depois de ver o styling pra evento após evento, todo mundo, de editores a blogueiros de moda e contas de marketing da indústria, sabia a verdade.
Quem era Elva? Ela tinha começado como Diretora de Moda Global da edição italiana da Oda, depois voltou pros EUA pra abrir o próprio estúdio, mas ainda mantendo a posição de consultora de styling-chefe da Oda. A maioria dos stylings dos artistas que apareciam na capa da Oda vinha dela, com um padrão muito alto. Ela conseguia transformar uma atriz tímida e com aparência mesquinha em uma beleza glamourosa ou reviver um astro com proporções terríveis. Metade dos artistas da lista A da indústria do entretenimento tinha confiado o styling a ela.
Embora a Winnie tivesse sido uma atriz famosa com uma fanbase forte, ela foi quem acabou mais prejudicada quando as duas brigaram.
Antes, com a alta costura do Wyatt, por que ele ia querer correr o risco de ser criticado pelos fãs por não ter profissionalismo, fazendo ela usar e oficializando? A razão era justamente essa.
É claro, os estúdios de styling de celebridades tinham surgido como cogumelos depois da chuva; tinha um monte de gente disposta a pegar os trabalhos da Winnie, tipo a Anne. Mas a Elva, por estar imersa no mundo da moda global há quase quarenta anos, tinha conexões pessoais profundas com muitos diretores de design atuais e designers fundadores de marcas. Quem ia usar uma peça de alta costura e quem não ia, a opinião dela era muito respeitada.
Ao insultar o irmão mais novo da Elva no set, a Winnie tinha ofendido alguém que controlava o pulso da moda das celebridades.
"A seleção de looks da Evelyn foi demais de novo dessa vez?" uma editora de moda de uma revista feminina tinha perguntado.
Ninguém ousava perguntar pra Winnie sobre isso, com medo de constrangê-la, então todo mundo tinha ignorado o assunto tacitamente.