Capítulo 76
O Van olhou nos olhos dela e, aos poucos, começou a sacar o maior mal-entendido, imperdoável, que ele tinha tido com ela no avião. Acontece que o orgulho que ela dava pra ele era diferente do orgulho que ela dava pros outros. Ele tinha achado que o orgulho que ele tentou quebrar no avião era uma armadura exibicionista, uma armadilha que ela mesma criou, uma teimosia forçada por causa da desconfiança que ela sentia por ele. Mas não era nada disso.
A Winnie piscou, sentindo que o Van na frente dela tava ficando cada vez mais turvo. A mente dela tava nublada e, com um biquinho, ela protestou com um tom mimado, "Cê não tá me respondendo".
O Van esticou a mão, fazendo carinho no calor das lágrimas dela. Os cílios longos dela estavam molhados. O Van abaixou os olhos, o olhar dele era de análise, como se estivesse estranhando. Ele REALMENTE não curtia a sensação dos dedos dele ficarem molhados, mas não se importou em enxugar as lágrimas e o suor dela.
A Winnie fungou, parecendo MUITO triste quando disse, "Se você me odeia, então esquece".
O assunto, sei lá porquê, voltou, e a expressão do Van suavizou um pouco. Ele respondeu, "Eu não te odeio". Ele tava quase pra falar mais, mas a campainha o interrompeu.
O Van gentilmente a colocou de volta na cama. "O médico chegou, eu vou atender a porta".
"Não vai", a Winnie insistiu, ainda agarrada no pescoço dele. O Van fez carinho na cabeça dela, mimando ela, "Se comporta, só dez segundos".
"Me leva com você", a Winnie disse, se levantando e se jogando em cima dele.
O Van ficou sem palavras, mas o olhar dele transbordava afeto. Sem outra opção, ele teve que arrastar a Winnie até a porta. Quando ele abriu, um médico alemão com cara de bravo, de uns cinquenta e poucos anos, tava lá fora. Ao ver o homem segurando a porta com uma mão enquanto apoiava a cintura da mulher com a outra, o médico analisou a cena: a mulher tava com os dois braços no pescoço dele, na ponta dos pés, com a cara enterrada no pescoço dele, corada e com os olhos fechados, bêbada.
O Van nunca tinha se sentido tão envergonhado na vida dele. Enquanto lutava pra firmar a Winnie, ele pediu desculpas sem jeito, "Por favor, desculpe ela, ela... não tá totalmente consciente".
O médico não disse nada, tirando um termômetro pra verificar a temperatura da Winnie. Deu 38,9°C, e o médico entendeu na hora.
O Van cuidadosamente colocou a Winnie de volta na cama e explicou pro médico, "Ela acabou de aterrissar e ainda não se acostumou com o fuso horário. Ela não descansou direito nas últimas 24 horas".
O médico concordou, guardando o estetoscópio. "De resto, tá tudo bem, mas ela vai precisar de uma injeção pra baixar a febre". O médico preparou a injeção e disse pro Van, "Essa é uma injeção intramuscular; por favor, certifique-se de que a paciente esteja sentada corretamente".
O Van ajudou a Winnie a sentar, tirando o cabelo do rosto dela. "Winnie, senta, você precisa tomar a injeção".
A Winnie, com os olhos ainda fechados, respondeu grogue com um "Hum", e esticou a mão fraca. O Van gentilmente empurrou a mão dela pra baixo. "Não é no braço, é uma injeção na bunda".
Ao ouvir as palavras "injeção na bunda", a Winnie se assustou. "Uma injeção na bunda...? Eu não quero..."
O Van suspirou e gentilmente fez carinho na cabeça da Winnie, a voz dele cheia de desamparo. "Se comporta, vai parar de doer quando acabar".
A Winnie, como um bichinho chateado, se contorceu inquieta. O Van a segurou firme, posicionando ela na beira da cama. Ela não conseguia sentar sozinha, então ela se agarrou nele, encostando o rosto no peito dele.
"Por favor, ajude a levantar um pouco a saia dela", disse o médico calmamente, segurando a agulha enquanto olhava pras duas pessoas, quase grudadas.
O Van manteve a voz suave, quase um sussurro, mas o tom dele era distante e sério, "Levanta os quadris".
A Winnie obedeceu, levantando um pouquinho pra permitir que ele puxasse a saia.
A camisola de seda azul clara roçou nas coxas delicadas dela enquanto era gentilmente puxada, depois se juntou na cintura dela. O Van segurou com uma mão, e, embora ele tivesse mantido o olhar fixo, ele ainda pegou a visão da calcinha de renda dela. Branca, cobrindo só metade, grudando como pétalas nos quadris arredondados dela. O Van sentiu um calor leve na garganta, mas permaneceu calmo enquanto assistia a agulha de prata perfurar a pele macia dela.
No momento em que a agulha entrou, a Winnie soltou um grito, lágrimas escorrendo.
Depois que o médico terminou a injeção e receitou os remédios, ele deu conselhos sobre dieta e avisou contra certos alimentos. A consulta terminou pouco antes das duas horas. O Van o acompanhou até a porta, e quando ele voltou, a Winnie finalmente tinha adormecido profundamente, enfiada na cama.
Comparado com a meia hora de choro, comportamento irracional e balbucios incoerentes logo antes, o Van agora escutava a respiração dela, e por um momento, o mundo pareceu incrivelmente quieto.
O quarto tava quente e abafado. Ele foi até a janela, abriu uma frestinha e respirou fundo. O ar lá fora tava frio, carregando o cheiro da cidade e da neve. Ele ficou perto da janela, vendo a neve enquanto fumava um cigarro silenciosamente.
Só às três horas, depois de verificar a temperatura dela mais duas vezes, é que ele teve certeza de que a febre dela tinha baixado. Ele finalmente dormiu no sofá do lado de fora da suíte, totalmente vestido.