Capítulo 27
Na mesa de jantar chique, toda montada com uns buquês delicados de flores frescas, os pratos já tinham ido embora, e no lugar tinham taças novas, com os cabos curtos. Agora, nelas, tinha vinho quente, feito na hora, com aquele cheiro bom de canela, cravo e laranja doce, tipo uma sinfonia que deixava a galera meio chapada.
A noite tava profunda, e o vinho, suave e bom pra caramba.
Aí, teve uma hora que o Eric bateu de leve na porta antes de entrar. Ele se abaixou pra cochichar umas paradas pro Sr. Marlowe, com a voz tão baixa que a Winnie não conseguiu entender nada.
O Sr. Marlowe só balançou a cabeça, tipo, “Entendi”. E respondeu rapidinho: “Manda o carro esperar na entrada.”
A Winnie deu uma olhada no relógio. Era tipo umas oito da noite, mas a noite tava parecendo uma eternidade. Mas mesmo que estivesse demorando, não tava sendo totalmente maneiro. E mesmo que não estivesse sendo totalmente maneiro, ia ter que acabar.
Pelo vidro, ela viu que a noite lá fora tava de um azulão bem forte, e a brisa tava trazendo aquele cheiro doce e bom de baunilha.
Quando eles terminaram a conversa, a Winnie tirou os olhos e perguntou, toda delicada: “Sr. Marlowe, o senhor tem mais alguma coisa pra resolver?”
O Sr. Marlowe levantou, fazendo um aceno de educação, todo chique como sempre. “Tenho sim. Foi uma honra, Srta. Loxley, ter sua companhia no jantar. Adorei. Vou pedir pra alguém levar você e sua assistente de volta.”
Sem chamar a galera que tava servindo, ele mesmo pegou o casaco da Winnie no cabide e colocou nos ombros dela. “A brisa do mar tá forte — cuidado pra não pegar um resfriado.”
O cheiro do perfume dela no paletó dele tava lá, suave mas duradouro. Ele arrumou a gola do casaco dela, olhando pra ela por uns segundinhos. “‘Chuva cai nas frutas da montanha; embaixo da lâmpada, insetos cantam.’ O perfume combina demais com você, tipo a primeira frase desse poema.”
Era só isso?
Uma voz ecoou na mente da Winnie. Quando o Sr. Marlowe tava quase indo embora, o coração dela deu uma apertada, e ela gritou de repente: “Sr. Marlowe!”
O Sr. Marlowe parou no meio do caminho e virou. “Sim?”
A Winnie se ajeitou, tipo jogando uma moeda pra cima, esperando pra ver de que lado ia cair.
“O senhor não acha que esqueceu alguma coisa?”, ela perguntou, com um sorriso quentinho e bonito no rosto. Por baixo da pose dela, toda calma e controlada, tinha um charme que ela ainda não tinha mostrado pra ele.
Ela se abaixou pra pegar uma sacola de papel pardo que tava ali perto do cabide. Abrindo, ela pegou um lenço de seda. “Devo te devolver isso.”
Era só um lenço, afinal — não precisava de tanta cerimônia ou ficar ali olhando pra ele enquanto falava.
O Sr. Marlowe não pegou.
A Winnie sorriu de leve, com os olhos firmes, encarando ele de volta. O sorriso dela tinha uma mistura de elegância e brincadeira, tipo um monte de histórias que ninguém sabia.
“Não quer? Como eu disse, a gentileza que você teve naquela noite de chuva e a ajuda que você me deu no hotel — pode ter parecido pouca coisa pra você, mas eu me sinto muito em dívida com você, tanto emocionalmente quanto moralmente, e eu realmente te agradeço.”
O Sr. Marlowe ficou quieto por um tempinho, e aí falou. “Srta. Loxley, como você gostaria de me agradecer?”
A voz dele tava firme, sem emoção, mas aquela voz grave e gostosa tinha um quê de atrativo, inegável.
A Winnie jogou a cabeça pra trás, com um sorriso nos lábios, mas por dentro, uma voz calma, mas que dava pra entender, ecoou: “Sua esperança vai acabar, garota tola.”
“Uma mulher bonita... O que ela poderia dar em troca pra um homem com tanto poder e status?” Ela respondeu com uma pergunta, levantando o pé no salto alto, encostando a mão sem nada no braço dele. Através do tecido, os dedos dela apertaram, amassando a camisa dele.
Com os olhos fechados, ela sentia o cheiro da respiração dele se misturando com a dela — limpo, com cheiro de tabaco de sândalo tropical.
Ela não podia fazer isso, fingir que era tão boa pra ele.
Por causa do nervosismo, ela não percebeu que o Sr. Marlowe tinha parado de respirar, por motivos que ela não conseguia entender ou identificar.
Quando os lábios dela estavam quase encostando no queixo dele, como o Sr. Marlowe tinha dito, “Chuva cai nas frutas da montanha”— naquele momento, ela quase sentiu como se uma fruta da montanha tivesse caído suavemente da chuva.
Mas ela não conseguiu.
De repente, a cintura dela foi puxada com força, com tanta força. A Winnie cambaleou, caindo nos braços dele por instinto, com as mãos nos ombros dele.
A voz do Sr. Marlowe tava baixa e rouca, “Srta. Loxley.”
Ele falou pesado, com uma expressão indecifrável, como se estivesse em dúvida entre várias emoções, “Se você já tem namorado, não deveria estar se forçando a fazer isso. Ou talvez…”
A Winnie não tinha terminado de entender o que ele tava falando, quando viu ele fazer uma pausa, e aí falar de novo, com um tom de sarcasmo raro, “Ou será que esse tipo de coisa é só uma forma de diversão pra pessoas como você?”
A mão dele era grande, segurando a cintura dela, com a palma quente encostada nas costas dela, fazendo o corpo dela esquentar com o toque.
“Quê?”, o olhar da Winnie mudou da confusão pra clareza, e aí foi ficando mais confuso ainda. “Que namorado é esse que você tá falando?”
O Sr. Marlowe franziu a testa, ainda olhando pra ela, tipo estudando o quão sem-vergonha ela era.
“Wyatt Robinson, é esse o nome?”
A surpresa dela foi de verdade. A Winnie abriu os lábios vermelhos, com os olhos brilhando debaixo do lustre, com uma cara de espanto.
“Ele não é…” A defesa dela ficou no meio do caminho.
A resposta, “sim” ou “não”, não importava mais, né? A Winnie sorriu, largando a tensão, com uma atitude de quem não tá nem aí.
Um momento rápido de desgosto e irritação passou pelos olhos do Sr. Marlowe, fraquinho mas dava pra notar.
“Você pode negar”, ele disse.
“Eu posso negar, mas Sr. Marlowe…” O rosto da Winnie foi ficando vermelho aos poucos, com a voz suave, “Você realmente precisa que eu negue nessa situação?”