Capítulo 4
O carro preto, com o teto prateado, nem parou na porta giratória. Em vez disso, deu uma volta na fonte e foi direto pra garagem subterrânea, provavelmente indo pro elevador VIP no Nível B2 pra subir direto pro salão de baile.
Enquanto o carro passava por ela, com a janela de trás já fechada, a Winnie tava parada na chuva, segurando o guarda-chuva. No vidro molhado e escuro da janela, refletia a própria imagem dela — encharcada e fantasmagórica.
Ela tava uma bagunça.
O que ela não sabia era que o cara lá dentro também tinha levantado o olhar pra dar uma última olhada nela, um sorriso de leve nos lábios.
O Eric, o motorista segurando firme o volante, notou e deu uma parada, olhando pro espelho retrovisor pra pegar a expressão do cara.
O Eric tinha quase sessenta, com as têmporas grisalhas, e ele preferia que o chamassem só de Eric. Na família Marlowe, cada irmão tinha seu próprio “Eric” designado desde criança, responsável pelas necessidades diárias e pelo treinamento de etiqueta. Quando eles cresciam, esses assistentes pessoais também cuidavam dos assuntos interpessoais e particulares.
O Eric era o “Eric” exclusivo do Van.
“Você conhece ela, jovem mestre?” o Eric perguntou, manobrando suavemente o carro na garagem.
Os movimentos do Van antes dos vinte anos tinham ficado confinados na Europa. Depois disso, ele mergulhou totalmente na gestão das operações do grupo em Las Vegas, deixando ele meio por fora das pessoas e eventos em L.A., sem falar em ter algum conhecido por aqui. O Eric sabia disso melhor do que ninguém.
“Já viu o vídeo de divulgação do novo cassino do Chill?” o Van perguntou.
A Chill Entertainment era uma empresa da família Marlowe que incluía cassinos, hotéis e resorts, atualmente supervisionada pela filha mais velha, a Cherry Marlowe. No início deste ano, a Chill, que nunca tinha contratado um embaixador de marca, anunciou oficialmente seu primeiro porta-voz global: a Winnie. O comercial com ela tinha sido transmitido em todo o mundo e tocava sem parar nas telas de publicidade icônicas de Las Vegas.
O Eric lembrou disso depois de um tempinho, uma ficha caindo. “Ela é a protagonista? Então… você tá interessado em algo além do vídeo, ou foi só uma coincidência do destino?”
O Van soltou um gemido suave e respondeu: “Nenhuma das duas coisas.”
O carro entrou no segundo subsolo e estacionou no lugar reservado. O Van pegou o paletó do terno e, quando abriu a porta do carro pra sair, confirmou a suposição do Eric. “É ela.”
O Eric, agora certo de que a mulher do comercial do cassino era mesmo a mesma Winnie que ele tinha acabado de ver, pareceu um pouco assustado. Era difícil pra ele ligar a figura “fantasmagórica” que ele tinha acabado de ver com a estrela de cinema glamourosa do comercial. Depois de processar por um instante, ele balançou a cabeça e riu, “Eu não reconheci ela. A maquiagem dela tava pesada mesmo.” Então, ele fez a pergunta chave, “Como você descobriu isso de tão longe? Parece que a verdadeira razão não foi por causa do comercial, afinal.”
O Van parou por um instante, virou e deu um olhar frio pro Eric. “Ser esperto demais nem sempre é bom.”
O Eric ficou quieto e seguiu o Van.
O terno preto, sem rabo, tinha uma textura e brilho incomparáveis, mas o Van jogou casualmente por cima do ombro. Ele entrou no saguão do elevador e, enquanto esperava o elevador, demorou pra colocar. Depois, ajeitou a gravata, dando uma torcida. Comparado aos convidados bem vestidos no salão de baile, ele parecia quase alguém montado às pressas pra fazer uma figura de convidado de última hora.
O elevador tocou, sinalizando a chegada. Quando as portas se abriram, o Edison viu a atitude despreocupada do Van.
“Você chegou cedo mesmo”, provocou o Edison.
O Van respondeu com o mesmo tom relaxado que ele usava. “Eu não estou atrasado.”
Os dois apertaram as mãos, dando um tapinha no ombro um do outro. “Quanto tempo.”
As portas do elevador se fecharam e o Eric apertou o botão do próximo andar.
“Como estão as coisas no lugar novo?” o Edison perguntou.
“Não tá nas melhores condições. Tô preocupado que não se adapte bem. Eles enviaram dois especialistas da Austrália pra checar, e eles vão se encontrar com seu povo quando chegar a hora.”
O Edison riu. “Eu tô perguntando pra você, não pro coala.”
A nova vila do Van era um lugar que o Edison tinha se desfeito com relutância. Era originalmente um centro de conservação de plantas com áreas ricas em oxigênio natural e janelas de observação ao ar livre. O Van era alguém que gostava de separar o trabalho da vida pessoal e esperava morar em um ambiente natural.
O Van deu um sorriso preguiçoso. “O coala não tá indo bem, e eu também não. Só consigo pensar em voltar pro bar de oxigênio pra respirar ar fresco e fazer exercícios, em vez de ficar sentado aqui bebendo.”
O Edison jogou um cigarro pro Van. “Dessa vez, você tá comprando portos e navios. Quantos bilhões você jogou nisso?”
O Van sorriu, com um tom difícil de saber se era brincadeira ou sério. “Não gastei muito ultimamente. Vamos chamar de um agrado.”
Enquanto se instalar em sua nova casa era algo que ele podia levar com calma, outra questão era urgente. Como novato, ele precisava construir relacionamentos e recursos, mas fazer as pessoas se conhecerem não era algo que qualquer um podia fazer — tinha que ser alguém com influência suficiente. O Edison era essa pessoa.
A porta do salão de baile estava logo ali. O Edison tirou o sorriso do rosto, buscando a opinião do convidado. “Então, o que vai ser? Entra comigo, ou quer dar uma olhada primeiro?”
Ele sabia que o Van seguia a tradição enraizada da empresa de discrição, era naturalmente orgulhoso e tinha um ar de distanciamento. Ele não queria entrar e ser o centro das atenções, cercado de pessoas tratando-o como uma figura reverenciada.