Capítulo 38
Ela tava parada encostada na porta, a tigela quente com um pano de seda embaixo. Ruby deu uma olhada pra ela, zuando a falta de educação.
"Ontem à noite, quando eu te perguntei sobre as X trends, você me ignorou," Ruby reclamou.
"Eu entro nas X trends a cada poucos dias. Você me pergunta sobre isso a cada poucos dias. Como é que eu vou acompanhar? É tudo coisa boba, não precisa se preocupar com isso."
"Ah, mas é a cada poucos dias que você tá bombando com o Wyatt," Ruby falou, com um tom acusador.
Winnie perdeu a fome e foi pra sala de jantar, largando a tigela.
"Wyatt tava numa exposição em Graceland recentemente, e ele até veio aqui em casa comer," Ruby continuou.
Winnie virou de repente e perguntou, "Como assim eu não fiquei sabendo disso?"
"Preciso te avisar sobre isso? Você também não me contou como as coisas estão indo entre vocês dois," Ruby retrucou.
Winnie tava fervendo de raiva. "Eu te falei, tô só fingindo com ele. A gente nem se pegou."
"Por que tá reagindo assim tão forte?" Ruby perguntou, confusa. "Eu falava do Wyatt e você nunca tinha essa reação. Sei lá, vocês brigaram?"
"Não sou próxima dele, e a gente não briga," Winnie respondeu friamente.
"Ah, mas ele veio aquele dia, e eu contei umas histórias suas pra ele, de quando você era criança. Ele ouviu com maior interesse," Ruby continuou, parecendo não ligar.
"Por que você não conta pra ele a época em que todo mundo achava que minha mãe era prostituta? Agora que eu cresci, a minha mãe quer que eu faça a mesma coisa?" Winnie retrucou com força.
Ruby foi pega de surpresa, a cara dela travou por um momento. Apesar do nervosismo, ela endureceu a expressão, ficando ainda mais fria.
Winnie já tava preparada psicologicamente pra isso há um tempão. Toda vez que ela chegava em casa, só alguns momentos de carinho viravam rapidinho uma discussão quente. Ela tinha pena da Ruby e se sentia cruel ao mesmo tempo. Então, ela juntou as coisas dela, subiu uns degraus correndo e bateu a porta com um estrondo.
O quarto dela era realmente lindo. Uma porrada de livros, bonecas rosas, bichos de pelúcia empilhados como pequenas montanhas, a saia de tricô que a Winnie fez com a mão quando era criança, fotos de quando ela tava aprendendo a dançar -- o cabelo dela todo montado, vestida com uma roupa preta de ensaio, as pernas esticadas.
Mas esse não era o quarto de verdade dela.
O lugar de verdade onde ela passou a infância estudando era num bairro fudido cheio de viciados, numa comunidade majoritariamente. As ruas e vielas eram cheias de moradores de rua. Ela passava por vielas escuras todo dia, com os olhos cheios de tesão pelas meninas. Toda vez que ela ia pra aula de dança, ela tava cheia de medo. Ruby segurava a mão dela com elegância, queixo levemente erguido, o olhar nunca desviando. Quando as pessoas olhavam pra ela, viam um cisne fora de hora.
Sussurros seguiam elas pra todo lugar.
"Levando a filha pra aula de dança de novo?"
"Ela tá disposta a gastar mesmo, hein."
"Aí, que sabe? Isso é um investimento."
"É, elas são diferentes da gente -- mulheres caídas."
"Ah, mulheres caídas? Mais pra uma daquelas segundas esposas que ninguém quer."
Mas Winnie sabia que a mãe dela não era assim. Ela conhecia o pai dela, alto, bonito, com uma voz estrondosa, sempre uma estrela no teatro musical até aquele dia fatídico em que ele foi sacaneado por um amigo, perdeu uma grande oportunidade e começou a se entregar. Depois disso, ele ficou irresponsável, a carreira dele despencou e ele desenvolveu um amor profundo por álcool.
Ruby era ambiciosa, mas o homem da vida dela era fraco.
Quando ela era mais nova, Winnie não entendia completamente o orgulho da mãe dela. O orgulho dela era auto ilusório. Num bairro como o delas, toda noite de verão, as ruas eram tomadas por moradores de rua viciados em álcool ou usuários de drogas perdidos no próprio mundo. O orgulho da Ruby, a dignidade dela, parecia desnecessário e teimoso num ambiente desses.
Dançar era difícil, e mesmo em casa, Winnie tinha que treinar. As colegas de turma dela treinavam em salas de estar grandes e claras em mansões espaçosas, mas Ruby tinha que tirar a mesa de jantar e as cadeiras do caminho pra Winnie treinar. Depois que ela terminava, Ruby colocava tudo de volta.
"Você não pertence aqui. Te trazer pra cá foi um erro meu. Você precisa sair."
Mas Ruby não era realmente uma mulher incapaz. Através do emprego dela como garçonete, ela tinha virado rapidinho uma mensageira, passando fofocas e segredos. Cada mensagem que ela passava rendia uma comissão pra ela, e com o tempo, as economias dela cresceram. Ela até conseguiu comprar uma casa, mas o marido dela, que tinha desenvolvido uma paixão por álcool, torrou tudo quando ela não tava olhando.
Teve uma vez em que Ruby pegou na mão da Winnie e parou na frente de um bairro de famílias brancas ricas. As ruas eram limpas, e o quintal de todo mundo era meticulosamente cuidado. A vegetação exuberante era uma prova da boa vida dos moradores. Ruby e Winnie vagaram pelo bairro por um bom tempo, e Ruby sussurrou baixinho, "Sabia que a mamãe podia ter uma casa aqui?"
"Por que você não teve?" Winnie perguntou.
"Se eu tivesse, você não teria nascido," Ruby respondeu, olhando pra ela e sorrindo. Ela acariciou o rosto da Winnie gentilmente, a palma da mão quente e as calosidades dela mais grossas do que no ano passado.
Foi muito tempo depois que Winnie descobriu que um herdeiro rico de segunda geração tinha oferecido pra Ruby um contrato de propriedade, pedindo que ela assinasse. Ele prometeu mudar a vida dela, mas Ruby recusou.
O empresário rico, talvez buscando vingança pelo orgulho dela, voltou a atenção pra uma das colegas da Ruby. A colega ganhou uma casa de quase um milhão de dólares de graça. Ela ficou tão surpresa, que sentiu como se tivesse ganhado na loteria da vida.
O empresário não tinha realmente nenhum sentimento profundo por ela, e depois de dois anos, ele a libertou. A colega se mudou pro Canadá, encontrou um namorado mais novo e viveu uma vida confortável.
"Sua mãe não sabia apreciar as coisas quando era jovem," Ruby dizia ocasionalmente pra Winnie.
Winnie ainda não sabia onde tava o pai dela. O casamento deles durou só oito anos. A bebida e a fraqueza dele o fizeram perder a forma, os olhos dele ficaram embaçados. Ruby o viu como um investimento fracassado, e ela rapidamente se divorciou dele e seguiu em frente.
Depois que ela fez oito anos, Winnie nunca mais viu o homem. Ela sentia falta dos dias em que ele trazia pizza pra ela depois do trabalho, e às vezes ela invejava outras crianças que tinham pais pra proteger, mas Ruby a ensinou a não ser fraca ou ingênua.
Na panela de metal, a sopa de curry tava grossa e borbulhando, o som abafado, diferente do estalo agudo da água fervendo. Ruby levantou a tampa de vidro, provou uma colher e perguntou pra Yulia, "Ela tá infeliz ultimamente?"
"O Sr. Robinson tá deixando ela infeliz," Yulia respondeu.
"O que ela não gosta nele?"
Yulia olhou pro casaco da Chanel da Ruby, bordado com fio de ouro. "Seu casaco é tão lindo. Eu gosto, mas prefiro o meu. Você não escolheria roupa só porque é 'satisfatório' quando for casar. Você tem que 'gostar'."
Ruby riu e balançou a cabeça. "Se eu fosse jovem, eu ia te aplaudir por dizer isso."
"Você também escolheu o que gostava quando era jovem, não só o que era satisfatório."
"Eu escolhi o que eu gostava, mas agora acho que talvez eu devesse ter escolhido o que era satisfatório." Ruby encostou no balcão, com as mãos apoiando, a figura dela ainda elegante. "Eu não quero que ela cometa os mesmos erros. Sabe, as filhas sempre se parecem com as mães quando eram jovens. Elas sempre acabam andando pelo mesmo caminho."
"Mas os tempos mudaram."
No fim, Yulia só conseguiu dizer, "Seus valores estão todos errados. Eles não combinam com a imagem artística que a empresa te deu."
Ruby lançou um olhar pra ela. "Engraçado, por que eu não ia ser um produto de uma família erudita?" ela provocou. "Eu leio todo dia agora, só pra ter um pouco dessa aura culta."
Ela brincou um pouco, reclamou um pouco, e depois de falar, ela trocou um sorriso com Yulia, sem saber que Winnie tava ouvindo do lado de fora da porta há um tempão.