Capítulo 19: Katie Howard
“Tá maluco?” Martin olha pela janela do quarto para o celeiro destruído antes de se virar para olhar para Beth; que tá sentada na cama com os braços no colo e a cabeça baixa. “Não entendi; não era você que queria ir embora daqui antes que tudo isso começasse? O que você dizia… que não se sentia confortável… que tinha um mau pressentimento sobre esse lugar?
Agora, descobrimos que você tava certa sobre essa casa o tempo todo e, você não quer ir embora; mesmo depois que Trish te contou sobre as famílias desaparecidas… nos ofereceu grana pra ir embora? Beth; o que tá rolando?”
Beth fica imóvel enquanto Martin fica puto com ela por não responder. Ele vai até a cama, fica na frente dela e grita, “Beth! O que tá acontecendo?”
Nada.
“Beth! Me responde, porra! O que tá acontecendo?!”
Ainda nada.
Martin perde a cabeça e dá um tapa na cara dela. “Me responde!”
Ela não reage. Ela continua na mesma posição; em silêncio.
Martin… volta a si, percebendo o que acabou de fazer… se joga de joelhos na frente de Beth e implora, “Ai, meu Deus, Beth, Baby, me desculpa… Eu não queria… por favor, me perdoa. Eu juro que eu… Ai, meu Deus, Beth…” Ele abaixa a cabeça e chora no colo dela; ainda sem reação de Beth.
Uns minutos se passam antes de Beth sussurrar, “Katie Howard.”
Martin levanta a cabeça, se força a parar de chorar enquanto enxuga as lágrimas com a manga da camisa e pergunta, “Quê?”
Ela repete, “Katie Howard.”
“Quem é Katie Howard?”
“Ela foi minha primeira melhor amiga. A gente se conheceu na pré-escola, quando tínhamos quatro anos; e fomos melhores amigas por três anos até…” Beth faz silêncio de novo.
“Até o quê?” Martin se levanta e senta do lado de Beth.
Beth, ainda olhando para baixo, continua, “Até que, um verão, Katie e a família dela foram viajar de férias. O pai dela bebia… muito. Eles estavam voltando e o pai dela tava carregado como sempre; então, acho que ele nunca viu as luzes piscando na passagem de nível quando ele quebrou a barreira e entrou na frente de um trem. Todos morreram naquela noite. Minha melhor amiga no mundo inteiro se foi.”
Lágrimas escorrem pelas bochechas de Beth. Ela as enxuga, respirando fundo, e continua…
“Eu lembro que doeu tanto. Chorei por dias; dizendo pra mim mesma, repetidas vezes, que não era justo. Por que isso tinha que acontecer? Por que eu tive que perder minha melhor amiga?” Beth começa a rir um pouco, enquanto chora ao mesmo tempo, “Meu Deus, é incrível como a gente pode ser egoísta quando é jovem, né? Quer dizer, minha melhor amiga e a família dela acabaram de morrer, e eu tava lá me perguntando como uma coisa dessas podia acontecer comigo? Claro que perdi uma amiga; mas ela perdeu a vida. Mas não pude evitar; fiquei com tanta raiva. Tão magoada.”
Beth enxuga mais lágrimas antes de continuar.
“Aí, minha avó veio um dia e me disse que tudo bem ficar triste; mas, não ficar mal por causa da Katie. Ela me disse que, mesmo sendo uma coisa terrível que tinha acontecido com ela; ela tava bem agora. Minha avó me disse que sempre que uma criança morre, Deus automaticamente a leva para estar com Ele no Céu.
E, por alguma razão, quando ela me disse isso; lembro que comecei a me sentir um pouco melhor. Demorou um pouco, é claro, para ficar bem com o fato de que eu nunca mais veria a Katie; mas, doeu menos depois de ouvir minha avó me dizer que ela foi para o Céu para estar com Deus. E, desde então, sempre acreditei no meu coração; que quando uma criança morre, ela vai automaticamente para o Céu, sem exceção.”
Beth faz uma pausa. Aí continua…
“Lembra quando Anna era recém-nascida, e ficou muito doente com pneumonia? Por um tempo ficamos preocupados que ela não fosse aguentar? Você lembra disso, Martin?” Martin balança a cabeça. “Meu Deus, que medo. Lembro de rezar para Deus constantemente, implorando, ‘Por favor, não deixe nossa bebê morrer. Por favor, não a leve de nós.’
E depois de rezar, eu me lembrava do que minha avó me disse sobre como as crianças iriam direto para o Céu para estar com Ele; e, por um breve segundo momentâneo, eu de alguma forma me sentia um pouco confortada com isso… mesmo voltando a ficar apavorada depois disso. Mas, teve aquele pequeno momento de conforto nessa crença.
Graças a Deus Anna se recuperou. Mas, sempre guardei no meu coração o que minha avó me disse.”
Beth se levanta, vai até a janela e fica olhando para fora. Ela continua…
“Agora estamos aqui; e temos os espíritos de três crianças mortas presos aqui. Por quê? Eu não entendo. Por que elas não foram para o Céu para estar com Deus, Martin? Por que Ele não as levou para Ele? Não faz sentido pra mim. Sempre acreditei no que minha avó me disse naquele dia; encontrei conforto no meu coração com essa crença.
E agora, essa situação vai contra tudo que eu acreditava ser verdade; e, eu não entendo. Preciso saber por que essas crianças foram deixadas aqui.”