Capítulo 50 A Viva Mary Howell
A Beth tá ansiosa a viagem toda, com o estômago dando um nó cada vez que chegam mais perto do destino. Ela tá prestes a conhecer a mulher que era pra ter morrido em 1961, junto com os pais. Quarenta e quatro anos depois, a Mary Howell ainda tá viva e morando em New Hampshire.
Quando eles entram na garagem, a Beth nota uma cortina na janela da frente da casa, tipo aquelas de filme, abrindo um pouquinho e depois fechando. Logo depois, a porta da frente abre, e uma mulher um pouco mais velha do que de meia-idade, vestida com um uniforme de enfermeira, sai. A Beth sente o coração começar a bater forte no peito. É o rosto da Mary… só que com uns quarenta e tantos anos a mais… com a covinha no queixo, igualzinho.
A Anna vê uma semelhança muito forte entre o rosto dessa mulher e o da amiga dela, e sussurra no ouvido da Beth: "Mamãe, essa é a avó da Mary?"
A Beth… que ainda tá chocada, boquiaberta com a mão na boca, com lágrimas escorrendo pelas bochechas… abaixa a mão e diz pra Anna: "Não, Sweetie, essa é a Mary." Ela enxuga as lágrimas e volta a colocar a mão na boca.
A Anna fica encarando a mulher, completamente boquiaberta.
O Professor Rhyies ligou mais cedo e avisou a Mary o porquê de eles estarem indo ver ela. Então, quando eles saem do carro, ela faz um sinal pra eles entrarem. Dentro de casa, ela leva eles pra sala de estar. A Mary sabe que a Anna tá encarando ela o tempo todo.
"Oi, querida, qual o seu nome?"
"Annabeth." Ela continua encarando a Mary mais velha.
"Que nome lindo, combina muito com você, Annabeth."
A Anna não fala nada, só fica encarando.
A Beth chama: "Anna! A Sra. Johnson acabou de te elogiar. Onde estão as suas boas maneiras? O que você diz?"
"Obrigada, Sra. Johnson." Ela continua encarando.
"Anna!" A mãe dela tá ficando constrangida.
A Mary levanta a mão. "Tudo bem… hum… Beth, né?"
"Sim."
A Mary olha pra Anna. "Você tá bem, Annabeth? Quer me perguntar alguma coisa?"
A Anna olha pra baixo e morde o lábio inferior, depois olha pra cima e pergunta: "Você é a Mary?"
Ela balança a cabeça. "Esse é meu nome."
A Anna pergunta: "Mas, você é a Mary que morava na nossa casa?"
Ela balança a cabeça de novo. "Sim, Annabeth, eu sou."
A Anna olha pra baixo de novo e morde o lábio, dessa vez tão forte que corta o lábio e começa a sangrar.
"Sweetie!" A Beth abre a bolsa e procura freneticamente um lenço.
O Professor Rhyies tira um lenço do bolso do paletó. "Aqui, Beth, tá limpo."
"Obrigada." Ela pega o lenço e limpa o sangue do rosto da Anna, depois coloca no corte do lábio, fazendo pressão. "Anna, Sweetie, você tá bem?"
A Anna continua em silêncio, nem percebe que mordeu o lábio, olhando para os próprios pés.
"Sweetie?"
O Professor Rhyies diz: "Deixa ela um pouco, Beth, ela precisa processar isso."
A Anna finalmente tira o lenço da mão da Beth do lábio, olha para o pano manchado de sangue e pergunta: "Então, quem é aquela na nossa casa, Mamãe?"
A Beth abraça a Anna, e enquanto afaga a cabeça dela, sussurra no ouvido da Anna: "A gente não sabe, Sweetie, é por isso que viemos aqui hoje… Pra conversar com a verdadeira Mary e ver se a gente consegue descobrir quem é aquela pessoa."
"Com licença, Sra. Johnson?"
"Mary, por favor, Professor Rhyies."
"Certo… Mary… mas pode me chamar de Wilhelm, então, combinado?"
"Combinado… Wilhelm."
"Mary, talvez tenha uma TV em algum lugar que a Anna possa assistir enquanto a gente conversa?"
"Claro, tem uma televisão lá em cima, no nosso quarto. Vamos, Annabeth, vamos ver se a gente encontra alguma coisa pra você assistir."
A Anna não se mexe.
"Anna, Sweetie, o que foi? Você pode ir com a Sra. Johnson pra ver o que tá passando… ou quer que eu vá com você?"
"Mamãe, eu posso ficar aqui?"
A Beth balança a cabeça. "Ah, não, Sweetie, essa é uma conversa de adultos e…"
O Professor Rhyies interrompe: "Talvez, Beth, não seja uma má ideia… pra ela saber o que tá acontecendo, sabe?"
"O quê?" A Beth tá chocada com a sugestão do professor. "Você não pode estar falando sério, Professor? Pelo amor de Deus, ela só tem seis anos!"
A Mary entra na conversa agora: "E eu tinha seis quando aconteceu, Beth. Olha o que eu passei naquela noite… com o que eu tive que lidar… o que eu tive que fazer. Crianças são bem resistentes. Às vezes, como adultos, a gente tende a esquecer o quão fortes a gente era quando criança… mas a gente conseguiu sobreviver e virar adulto."
A Beth fica em silêncio por um momento, acariciando a bochecha da Anna, antes de perguntar ao professor: "Mas você acha mesmo que ela precisa ouvir isso?"
"Beth, depois do que ela passou, eu acredito que ela ganhou o direito de saber o que tá acontecendo… não acha?"
A Beth balança a cabeça, com lágrimas escorrendo pelas bochechas de novo. "É… ela tem." A Beth funga, enxugando as lágrimas com o lenço manchado de sangue. "Ok, a Anna pode ficar."
A Beth coloca o braço em volta do ombro da Anna enquanto as duas se encostam no sofá. O Professor Rhyies começa.
"Eu sei que não vai ser fácil pra você, Mary…" ele olha pra Beth e pra Anna, "pra nenhuma de vocês… mas por que você não conta pra gente sobre aquela noite?"
A Mary junta as mãos no colo e começa a esfregá-las. Os olhos dela começam a se encher de lágrimas. Ela engole algumas vezes antes de começar a falar.
"Ok… hum… não sei bem por onde começar. Eu realmente não tentei pensar nisso e…"
"Tudo bem", o professor diz pra ela. "Relaxe. Vá com calma, Mary, a gente entende."
"Bom… todo mundo sabia sobre as mortes na cidade naquela época, mas ninguém nunca achou que ia acontecer com a família. Eu sei que eu com certeza não pensei nisso." A Mary olha pra as mãos enquanto engole de novo. "Não me lembro por quê, mas por algum motivo, eu não consegui dormir naquela noite. Eu tava deitada na cama, segurando minha boneca, olhando pro teto. Nem sei por quanto tempo fiquei lá assim… A noite parecia não ter fim. Então, eu ouvi… eu ouvi…" A Mary fica em silêncio.
"O que você ouviu, Mary?"
A Mary fecha os olhos com força, enquanto as lágrimas começam a sair. Ela abre os olhos e responde.
"Eu ouvi minha mãe gritando… nunca tinha ouvido ela gritar assim antes… nunca ouvi ninguém gritar assim de novo até hoje. Ela estava gritando pra mim, ‘Mary! Sai! Sai de casa, Mary!’ E então, eu não ouvi mais nada. ‘Sai de casa, Mary’… foram as últimas palavras que ouvi minha mãe dizer pra mim." A Mary fecha os olhos de novo, com mais lágrimas escorrendo pelo rosto.
A Beth também tá chorando, segurando a Anna. A Anna sente pena dela, mas não chora, só tem uma expressão de simpatia no rosto. Ela se levanta e vai até a Mary, depois estica a mão e segura as mãos trêmulas da Mary. A Mary abre os olhos e olha pra Anna preocupada. A Mary enxuga as lágrimas do rosto, pega a Anna e a coloca no colo enquanto continua.
"Eu tava tão apavorada, mas por algum motivo, me senti compelida a ir pro quarto dos meus pais. Lembro de correr pelo corredor, parando do lado de fora da porta deles. A porta do lado direito tava meio aberta, e lembro de ouvir muito barulho vindo de lá. As coisas estavam caindo, sendo jogadas e quebrando. Quando eu espreitei, eu vi… eu vi… eu…" A Mary fecha os olhos e tenta se recompor.
O professor diz: "Mary, não precisa nos contar o que você viu no quarto dos seus pais naquela noite, a gente vai entender. Se você pudesse só nos contar o que aconteceu depois… quando você tava no celeiro, talvez?"
A Mary respira fundo e continua. "Ok, então… eu corri pro celeiro e me escondi no sótão. Lembro de esperar, olhando por uma fresta nas tábuas pra nossa casa. Então, eu vi ele sair pela porta dos fundos… coberto de sangue… arrastando um machado no chão atrás dele. Ele olhou em volta antes de ir pro celeiro. Foi aí que eu me escondi atrás de alguns fardos de feno que estavam no sótão.
Lembro de ouvir as portas do celeiro se abrirem com um baque. Depois, ouvi ele jogando coisas pra lá e pra cá e chutando as baias. Depois disso, ouvi ele subindo a escada, e eu sabia que tinha que fazer alguma coisa ou ia me dar mal.
Acho que foi aí que a adrenalina entrou, porque de repente eu senti essa onda de força inacreditável. Peguei um fardo de feno e joguei em cima dele, derrubando ele da escada. Depois disso, pulei do sótão, aterrissando em cima dele. Aí… eu surtei. Fui pegar uma pá que tava no chão na baia, e comecei a bater na cabeça dele sem parar… eu não conseguia parar. Minhas mãos estavam doendo com a pressão do impacto, mas eu continuei batendo nele. Eventualmente, meus braços ficaram tão exaustos que eu não conseguia mais levantar a pá, foi aí que eu parei. Joguei a pá perto do corpo imóvel dele e saí pro quintal.
A próxima coisa que eu lembro, o Delegado Roy Jameson, que tava passando na frente da nossa casa em patrulha, entrou na garagem… acho que ele achou estranho eu estar no quintal aquela hora da noite. O Delegado Jameson me disse mais tarde que quando ele viu o sangue no meu pijama, ele percebeu que algo terrível tinha acabado de acontecer, e ele imediatamente chamou reforços. E foi isso… acabou."
Há silêncio na sala enquanto a Mary segura a Anna simpática, a Beth enxuga as lágrimas e o professor fica pensativo. Depois de vários minutos, o professor quebra o silêncio e continua a conversa.
"Mary, você sabe quem foi o seu agressor naquela noite?"
"Não, eles nunca me contaram."
"Você se lembra como ele era?"
"Não, ele tava usando uma máscara de esqui."
"Me perdoe por perguntar, Mary, mas se o assassino tava usando uma máscara de esqui, como você sabe que era um homem?"
"Eu estou assumindo que era um homem porque ele era muito grande… e tinha a estatura de um homem."
"Será que é possível que o assassino tenha parecido muito grande porque você era uma criança pequena na época, Mary?"
A Mary balança a cabeça vigorosamente. "Não. Confie em mim, Wilhelm, essa pessoa era enorme. Um monstro!"
"Tenho certeza que era." O professor sorri e solta uma risada. "E, mais um caso de Davi matando Golias."
"Suponho que sim." A Mary dá um pequeno sorriso.
"Então, por que eles nunca relataram que o assassino estava morto, e fizeram os jornais escreverem que você foi morta, Mary?" A Beth pergunta.
"Não sei por que não contaram pra as pessoas que ele foi morto. Eles me disseram que era melhor as pessoas acharem que eu tinha sido morta porque eu já tinha passado por muita coisa e não precisava de repórteres me atormentando com a minha história, o que era verdade… eu não precisava disso. Então, eles providenciaram para que eu me mudasse para a casa da minha tia em Connecticut. Fizeram ela concordar com a história e me deram um nome e uma história falsos para eu usar a partir daí."
"E essa foi ideia do departamento de polícia?" O Professor Rhyies pergunta.
"Na verdade", a Mary responde, "acho que foi plano do Prefeito Phillip Steinman."
"Plano do prefeito?"
"Sim, ele estava lá naquela noite. Acredito que o Xerife Coles ligou para ele vir à casa."
"Por quê?" A Beth entra na conversa.
A Mary responde: "Não sei."
"Quem era o prefeito na época, Mary?" O Professor Rhyies pergunta enquanto começa a limpar as lentes dos óculos.
"Na época… vamos ver… acho que era o Phillip Steinman."