Capítulo 2: Apresentando… Mary
A Beth tá sentada no sofá da sala faz horas, com a cabeça a mil. Começa a lembrar daquelas noites na casa da avó quando era criança.
À noite, no escuro, aqueles corredores e escadas pareciam que se esticavam infinitamente a cada passo que você dava. Quanto mais rápido você corria, mais longe o seu destino ficava de você, até que alguma fórmula mágica da física quântica te permitia alcançá-lo.
E depois, tinham aqueles barulhos horríveis no escuro... coisas que se mexiam no escuro, como dizem. Cada som amplificado, latejando nos ouvidos a noite inteira. Sons sinistros que assombram suas memórias pelo resto da vida. Você nunca vai se livrar deles completamente. Eles só vão ficar adormecidos, esperando a hora de acordar e ecoar na sua mente mais uma vez. Agora é a hora dos barulhos da Beth acordarem.
Num estado de transe autoinduzido, a Beth está hipnotizada com os pensamentos das noites na casa da avó, quando de repente ela é 'despertada' por batidas na porta da frente.
Enquanto olha para a porta da frente, tem outra batida.
"Quem é?"
Sem resposta. "Alô? Quem está aí?"
Sem resposta, mas outra batida. A Beth decide ir atender a porta, mas antes pega um castiçal da lareira.
A Beth se move lentamente em direção à porta. Mais batidas. Ela para, aperta o castiçal com mais força, enquanto o puxa para o peito, respira fundo e grita...
"Quem... é... você?!"
Sem resposta. Mas, sem bater também.
Então, uma realização perturbadora entra na cabeça dela... a Anna está lá fora, sozinha em algum lugar! A Beth corre para a porta para olhar para fora, mas, assim que ela alcança a maçaneta, ela ouve batidas na porta dos fundos da cozinha.
Agora preocupada com a Anna... sem hesitar... ela se vira e corre rapidamente para a porta dos fundos. As batidas param assim que a Beth força a maçaneta e abre a porta com força. Ela sai correndo para fora, com o castiçal na mão.
Não tem ninguém lá.
A Beth vê a Anna pulando corda perto do celeiro. A Anna, vendo a mãe dela, para para acenar para ela. A Beth, aliviada por sua filha estar bem, sorri e acena de volta. A Anna volta a pular corda.
A Beth, boquiaberta, começa a rir. Ela não quer, mas não consegue evitar. Então, ela ouve, e a risada para.
A porta da frente simplesmente bateu.
A Beth entra de novo na casa, voltando com cuidado para trás do sofá. A Beth fica atrás do sofá observando o que está em volta.
Não há sinais de ninguém ali. Agora, pensando que talvez quem quer que seja já tenha ido embora, a Beth abaixa o castiçal, mas ainda o segura. Ela vai olhar pela porta da frente.
Ao chegar à porta, ela rapidamente levanta o castiçal de volta para a 'posição de ataque', com os nós dos dedos imediatamente brancos de tanto segurar. Seu coração começa a bater forte e sua respiração fica pesada. Ela treme, e o suor começa a se formar na testa.
A tranca tinha sido fechada e a porta acorrentada novamente. A Beth chega à perturbadora conclusão de que quem quer que tenha batido a porta ainda deve estar na casa, e em um breve momento de pensamento lúcido e raciocínio, ela corre para o telefone para ligar para o 911. Ela pega o fone e... sem tom de discar.
Ela derruba o fone e o castiçal ao mesmo tempo, ficando paralisada de medo. Ela quer se mover, mas não consegue.
Depois de ficar imóvel por o que pareceu uma eternidade para ela, a Beth ouve os passos de uma criança correndo pelo chão acima dela. De repente, ela consegue se mover e começa a seguir o barulho dos passos indo e vindo pelo teto.
Eles param, e a Beth também para. Ela espera e escuta.
"Mamãe?" a Anna chama da cozinha.
A Beth pula, assustada, e então responde à Anna: "Espere, Querida, eu já vou."
A Beth não ouve mais nenhum passo, então ela vai até a Anna, que está na mesa da cozinha se preparando para servir dois copos de suco de laranja.
"Mamãe, você viu a Mary?"
Ainda distraída, olhando de volta para a outra sala, a Beth, como se estivesse no 'piloto automático', instintivamente continua a conversa: "Não. Quem é Mary?"
"Ela é minha amiga."
"Sua amiga? Eu não sabia que você já tinha uma amiga aqui."
"Sim, a gente brinca o tempo todo lá no celeiro."
"Ah, que bom, fico feliz que você tenha alguém para brincar." A Beth continua olhando pela cozinha em direção à sala de estar. "Então, ela é legal?"
"Sim. Muito legal."
"Que bom. Você vai ter que apresentá-la para mim algum dia." Então a Beth percebe. "Querida, espera um pouco, por que você está me perguntando se eu vi a Mary? Ela não estava brincando com você?"
"Sim, mas ela perguntou se podia usar o banheiro."
"Então, você disse para a Mary usar o nosso banheiro?"
"Sim. Não tem problema, né, Mamãe?"
A Beth se abaixa e abraça a Anna. "Sim. Sim, é claro que não tem problema, Querida." Ela abraça a Anna de novo e beija sua bochecha.
Finalmente aliviada, ela se senta na mesa da cozinha enquanto a Anna serve o suco. Elas sentam e esperam a Mary descer.
A Mary nunca desceu naquela tarde.