Capítulo 30 Amizades e intenções
Quando eles entram na sala, a Anna tá parada, de frente pra parede, segurando firme a Jean-Louise Wadell. A Beth vai e se ajoelha do lado da Anna, bota a mão no ombro dela e pergunta, "Sweetie, o que foi?"
A Anna não fala…nem vira pra olhar pra Beth…só aponta pro espelho. A Beth olha pro espelho e leva um susto com a mensagem escrita com sangue, o que faz ela pular e engasgar, cobrindo a boca com as mãos. O Xerife Faulkner e o Martin correm pra perto da Beth e da Anna, e agora eles veem a mensagem no espelho.
O Martin pergunta, "Lloyd, isso é…"
"É sim." O xerife responde pro Martin antes dele terminar.
A Beth se ajoelha de novo do lado da Anna. "Sweetie?" A Anna continua no estado 'comatoso', então a Beth bota a mão de leve no queixo da Anna…deixando ele na palma da mão dela…e vira a cabeça da Anna devagar pra ela encarar. "Anna…Sweetie…você tá bem? Fala comigo, Sweetie, o que aconteceu?"
A Anna murmura, "Chelsea."
A Beth vira pra olhar pro Martin e pro xerife, depois olha de volta pra Anna. "Sweetie, a Chelsea tava aqui?"
A Anna balança a cabeça.
"Ela te machucou, Sweetie?"
A Anna balança a cabeça.
"Graças a Deus." A Beth suspira de alívio e depois pergunta, "Anna, Sweetie, o que ela queria? Tava procurando o Tommy?"
A Anna balança a cabeça de novo.
"Ela te falou alguma coisa?"
A Anna balança a cabeça.
"O que ela te falou, Sweetie?"
"Ela falou pra não acreditar na Mary, e pra não ir na floresta com ela."
"Com licença, Sra. Annabeth?" O xerife se ajoelha com um joelho só, apoiando os braços no outro joelho dobrado. "Desculpa a interrupção, Beth. Sra. Annabeth, ela te falou por que você não deveria ir na floresta com a Mary?"
"Não."
"Aí, Lloyd," o Martin chama o xerife, "dá pra vir aqui um minuto?"
"Com licença, damas."
O Xerife Faulkner levanta e vai até o Martin. Eles viram as costas pra Beth e pra Anna, se aproximam e cochicham. Enquanto isso, a Beth continua conversando com a Anna.
"Então, você tem certeza que tá bem, Sweetie?"
"Sim, Mamãe." A Anna faz uma pausa, olhando pro chão, depois volta pra Beth. "Mamãe?"
"Sim, Sweetie?"
"A Chelsea…ela tava tão assustadora."
A Beth abraça a Anna, falando no ouvido dela, "Eu sei, Sweetie. Ela já foi."
"O que aconteceu com ela, Mamãe, por que ela tá assim?"
A Beth tenta pensar em como explicar pra Anna por que a Chelsea tá do jeito que tá. "Bem…Sweetie…a Chelsea sofreu um acidente e se machucou muito feio."
"Mamãe?"
"O que foi, Sweetie?"
"Por que a Chelsea tá falando que eu não devo acreditar na Mary?"
"Eu não sei, Sweetie."
"A Mary falou que você também não acredita nela…por que não, Mamãe?"
A Beth tá sem saída agora. Sorte dela, o Martin e o xerife terminaram a discussão e o Xerife Faulkner voltou, se ajoelhando do mesmo jeito de antes.
"Sra. Annabeth, seu pai e eu estávamos pensando…A Chelsea chegou a mencionar alguma coisa sobre a Dalila?"
A Beth rapidamente vira pro Martin e dá uma olhada severa e desaprovadora. O Martin só dá de ombros. A Beth fica aliviada de ouvir a Anna responder que não.
O Martin vai pra lareira e encosta o cotovelo na chaminé, e depois percebe que todas as estatuetas de cristal da Beth, um par de globos de neve e três vasos pequenos foram destruídos. "Que porra é essa? Anna, foi a Chelsea que quebrou essas coisas aqui?"
A Beth e o xerife vão pra ver o que o Martin tá falando, e a Anna responde, "Não."
"Sweetie," a Beth pergunta, "se a Chelsea não fez isso, como quebrou?"
"Eu não sei, talvez elas quebraram quando congelaram."
A Beth faz uma cara de confusa. "Congelaram? Sweetie, o que você quer dizer com congelaram?"
A Anna explica, "O quarto ficou muito, muito frio. Tinha gelo em todo lugar…até em mim!"
A Beth, o Martin e o xerife se olham, depois a Beth pergunta pra Anna, "Sweetie, quando isso aconteceu?"
"Depois que acabou o Rugrats. Eu tava no sofá, e de repente, ficou muito frio, e eu comecei a tremer. Aí, meu nariz e meus dedos doíam…e quando eu olhei pros meus dedos, tinha gelo neles. Eu olhei pro quarto e tava tudo coberto de gelo. Tava tão frio. Aí minhas pernas e meus braços e meu rosto começaram a doer. Eu vi gelo neles também. Doía pra respirar. Aí…aí…"
"Aí o quê, Sra. Annabeth?"
"Eu não sei. Eu lembro de acordar, e o quarto tava quente, e o gelo tinha sumido…e a Jean-Louise Wadell também tinha sumido. E aí, eu achei que tinha alguém atrás de mim, e fiquei com muito medo. Eu fechei os olhos e virei…mas quando eu abri, não tinha ninguém lá. Mas, aí quando eu virei, a Chelsea tava lá."
"Então…o quarto ficou muito, muito frio no começo, e logo depois você viu a Chelsea, Sra. Annabeth?"
"Sim, Xerife Faulkner."
A Beth, o Martin e o xerife vão conversar. O Martin pergunta pro xerife, "Lloyd, você acha que a Chelsea fez o quarto congelar?"
"Eu não sei, Martin, parece que ela fez mesmo. Eu ouvi falar de lugares assombrados que têm pontos frios, mas isso aqui supera tudo. Quer dizer, você tem que se perguntar se ela seria capaz de fazer algo dessa magnitude."
"Por que não? Afinal, ela levou a Beth de volta pra noite do assassinato dos Howell. Se ela é capaz disso, congelar um quarto não seria nada, né?"
A Beth se mete, "E, a Mary com o celeiro, ela também tem poderes. Quem garante que ela não teve nada a ver com o quarto congelando?"
"Mas, a Mary não tava por perto quando o quarto congelou, a Chelsea tava."
"Como você sabe que a Mary não tava por perto quando aconteceu, Martin?"
"Ah, Beth, a Anna falou que viu a Chelsea, não a Mary."
"Isso não significa nada."
O xerife se mete. "Agora, Beth, se você tá na polícia há tanto tempo quanto eu, você vai ver um certo padrão."
"Do que você tá falando, Lloyd, que padrão?"
"O padrão onde em 99,9 por cento dos casos, aqueles indivíduos testemunhados na cena do crime são os que geralmente fizeram isso, em oposição àqueles que não foram vistos lá."
"Entendi, Lloyd." A Beth continua, "Mas, me diz uma coisa…desses 99,9 por cento dos casos que você tá falando, qual a porcentagem deles envolve fantasmas? Afinal, fantasmas têm uma tendência de ficar invisíveis de vez em quando, pelo que eu ouço dizer."
O xerife dá uma palmadinha no chapéu pra Beth, "Touché, Sra. Lazinski."
"Beth, querida, sério," o Martin pergunta, "por que você tá tão convencida que é a Mary? Parece que você tem algo contra ela. Por que a Chelsea não poderia ter feito isso?"
"Por quê?"
"Por quê o quê?"
"Por que a Chelsea faria isso?"
"Eu não sei. Assim como eu não sei por que a Mary faria isso também…Mas, eu consigo pensar em um motivo por que a Mary não faria isso."
"E qual é, Martin?"
"Porque a Anna é amiga da Mary."
"Não, a Mary é amiga da Anna, eu ainda não tenho certeza se é recíproco da parte da Mary."
O Xerife Faulkner pergunta, "Agora, por que você diz isso, Beth?"
"Uns dias atrás eu fui ver como a Anna tava, e a Mary tava no quarto dela. Eu perguntei pra Mary o que tinha acontecido com a Anna, e sabe o que ela disse?" Ela faz uma pausa breve antes de terminar, "Ela disse que nada aconteceu com ela…ainda. Ainda. Foi como se ela estivesse me dizendo que algo ia acontecer com ela, e que seria culpa minha e da Chelsea por termos ido no quarto dos pais dela."
"É, Beth," o Martin interrompe, "mas, você me disse que a Mary falou que era porque você o deixou bravo, por isso. Então, você não acha que ela só tava tentando te avisar? Quer dizer, na minha opinião, esse é mais um exemplo de como a Mary tá ajudando…"
"Ajudando, Martin? Você é idiota? Sério, que…"
"Espera aí, vocês dois," o xerife tenta acalmar a situação, "brigar entre nós não vai resolver nada. Agora, quem é 'ele'? Quem tá bravo?"
O Martin responde, "O assassino."
"O assassino?" O xerife tá perdido. "Que assassino?"
"O assassino em série, Lloyd," a Beth fala pra ele, "aquele que matou aquelas famílias."
"Ah…entendi." O xerife tira o chapéu, passa os dedos pelo cabelo e coloca o chapéu de volta. "Que porra vocês tão falando? Por que um assassino do passado…que, se ainda estivesse vivo, provavelmente estaria nos seus setenta ou oitenta anos…ficaria bravo com você e a Chelsea por terem ido no quarto dos pais da Mary, fazendo ele querer voltar pra fazer coisas com a Anna? Isso não faz sentido."
"Você tá certo, Lloyd, não faz." A Beth vira e olha pro Martin, "O que é mais uma razão por que eu tenho minhas dúvidas sobre a Mary."
O Martin ainda não entende o ponto da Beth. "Ok, então pelo menos explica por que você ainda não acredita na Mary, mesmo depois dela ter falado a verdade até agora. A Dalila, por exemplo. Foi ela que te contou sobre a Dalila, certo?"
"Cadê o corpo, Martin? A gente nunca achou o corpo dela."
O xerife se mete. "Calma, Beth, ainda tem muita área pra checar. E, eu acho que vamos precisar de mais ajuda pra procurar…"
"Lloyd, não me diga que você planeja usar os outros delegados pra ajudar a procurar o corpo dela?" A Beth expressa sua preocupação, "Se eles fizerem parte disso, podem tentar nos impedir de encontrá-lo. Além disso, eu ainda tô me perguntando se o Delegado Hopkins te falou a verdade sobre ser a antiga fazenda Johnston. Você falou que acreditou nele porque ele te falou onde era a fazenda…e, se ele tivesse algo a ver com isso, ele não teria te falado onde era, né?"
"Sim."
"Claro, Lloyd, isso faz sentido, quer dizer, por que indicar a área onde você enterrou um corpo…isso seria uma loucura. Mas, se você enterrou um corpo, não seria tão loucura assim se você mandasse pessoas procurarem no lugar errado. Assim, você impede que eles encontrem, e faz com que eles pensem que você não tem nada a ver com isso, porque você tá 'ajudando'."
O Martin tenta convencer a Beth, "Mas, o Delegado Hopkins tinha que estar falando a verdade, porque a Mary viu eles enterrando o corpo, e ela não pode sair da propriedade. Então, essa tem que ser a antiga fazenda Johnston. Quer dizer…e, me corrige se eu estiver errado, Lloyd…se duas pessoas diferentes, que não poderiam ter corroborado suas histórias, te contam essencialmente a mesma coisa, então elas têm que estar falando a verdade, certo, Lloyd?"
"Provavelmente."
A Beth ainda não tá convencida. "Então, por que a gente não viu eles, Martin?"
"Ver quem?"
"Se eles enterraram um corpo aqui…sem falar que o corpo supostamente foi trazido pra cá num carro da polícia…então, por que a gente não viu eles?"
"Eu não sei, talvez a gente tava dormindo. Jesus, Beth, qual é? Por que você não consegue aceitar que a Mary tá falando a verdade?"
"Eu te falei por que na outra noite, Martin, lembra?"
O Martin responde sarcasticamente, "Ah, é, os 'olhos'."
"Vai se foder, Martin, você não tem ideia do que tá acontecendo aqui. Que tal o seguinte, por que você não guarda suas opiniões pra você. Como você disse antes, eles não se comunicaram com você…toca aqui na madeira, né Martin…então, não vai escolher em quem acreditar ou não. Eu falei com eles…estive perto deles…senti a presença deles. Eu posso não saber de tudo o que tá acontecendo ainda, mas eu sei o suficiente pra saber que eu não confio na Mary. E, eu sei que a Chelsea não faria nada pra machucar a Anna."
"Como ela não machucaria o irmãozinho dela, Beth?" O Martin olha pro teto, soltando uma respiração antes de olhar de volta pra Beth. "Você tá certa, Beth, eu não tive nenhum contato com eles, e você teve. Então, eu não vou falar mais nada sobre se eu acredito ou não na Mary, na Chelsea, ou no maldito Coelhinho da Páscoa, pra falar a verdade! Mas lembre-se disso, Beth, a Anna é minha filha também, e eu tô preocupado com a segurança dela tanto quanto você. Então, de agora em diante, minha única preocupação vai ser o bem-estar da nossa criança, se não for incomodar. E, eu acho que tá na hora de a gente sair dessa porra. Se você quer ficar aqui e brincar de Nancy Drew, pode ir em frente, mas eu tô saindo dessa casa, e eu tô levando a Anna comigo."
"Você não pode, Martin."
"Pode apostar que posso. Ela também é minha filha, caramba, você não pode me impedir de levá-la."
"Eu sou a mãe dela, Martin. Pergunta pro Lloyd, geralmente é a mãe que ganha nos casos de custódia."
"A gente tá transformando isso num caso de custódia, Beth?"
"Não, Martin, eu só tô te mostrando que eu poderia te impedir de levá-la com você se eu quisesse. Mas, não depende de mim."
O Martin e o xerife se olham, e depois, olham de volta pra Beth.
"O que você tá dizendo, Beth?"
"Eu tô dizendo, Martin, que eu tô preocupada com a segurança dela, assim como você. Se dependesse de mim, eu faria as malas dela agora e mandaria vocês dois embora…Mas, de novo, não depende de mim."
"Agora eu tô perdido, Beth," o xerife admite.
"Lloyd…Martin…a Anna não pode sair daqui. Eles não vão deixar."
"O que você quer dizer com eles não vão deixar ela sair?"
"Martin, é como vocês disseram antes, a Mary, a Chelsea e o Tommy estão se comunicando com a Anna e comigo por algum motivo…seja qual for o motivo. Eles ou querem ou precisam da gente pra ajudar eles a resolver alguma coisa aqui. Eu honestamente acredito…não…eu sei que não há como eles deixarem a Anna ser levada."
"Mas, Beth," o Martin, que se acalmou, pega nas mãos dela e beija, "se a Anna ficar aqui, algo pode acontecer com ela."
A Beth olha pra Anna…que tá encarando o espelho o tempo todo, totalmente alheia…então vira pro Martin e beija as mãos dele. "Sim, Martin, se ela ficar aqui, algo pode acontecer com ela. Mas, se a gente tentar mandá-la embora…algo vai acontecer com ela…eu sei disso."